terça-feira, 29 de setembro de 2009

RSS.


Clicava, clicava, clicava e nada satisfazia seus desejos. Passeou pelo Google, quase que inspirado por Chapéuzinho Vermelho e sua floresta. Chegou até a se perder, antes de descobrir que havia pulado a página trinta e sete. Nada era capaz de dar uma nova cara àquela noite abafada de terça-feira. Entretanto, quando ele já olhava para a cama de uma maneira diferente, deparou-se com aquilo que tanto buscara. Seu tesouro supremo. Sentiu um calafrio percorrer a espinha, para segundos depois ver o calafrio se transformar em sorriso. Para se transformar em alegria. Para se transformar em excitação. Deixou escapar um É isso que eu queria e, sem titubear, assinou a RSS. O garoto era esperto. O blog mais ainda.

Se você se sentiu como nosso amigo anônimo acima, assine o RSS do blog. É só clicar no RSSzão no começo do texto ou no link direto, lá no topo. Honestamente, eu o faria se fosse você.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Um retrato.

Nunca teve como objetivo esconder a velhice. Deixava bem à mostra as manchas no rosto, a falha no topo da cabeça, as verrugas e, com certeza, o ar rabugento ao redor dos olhos. Carregava cada uma delas com um certo orgulho. Seu semblante cansado, cheio de histórias para contar, era sua verdadeira obra-prima. A que mais deu trabalho, pelo menos. E lá, da benção da velhice, enquanto, para alguns, ele já estava no lucro, ele se permitiu. Permitiu encontrar inspiração na simplicidade, no mundano. Não viverá o que imaginou ao ver aquele cenário. Felizmente. Olhou para o chão e enxergou-o vermelho, pintado de sangue. Não vermelho sangue. Sangue plebeu. O crânio aberto, o cérebo fora do habitat natural. A pilha de corpos. Um amontoado de incompreenssão. Levantou a cabeça e teve diante de si o olhar estarrecido dos futuros cadáveres. A palma que cobria o rosto. Os braços que clamavam por Deus. Os punhos que, por um último instante, insistiam em permanecer cerrados. Sentiu um aperto no peito, o fôlego desaparecendo. Num impulso, levou as mãos ao coração. Deixou o caderno cair. Com um pouco de sacrifício, ajoelhou-se para pegá-lo. As mãos trêmulas, as pernas fracas. Ainda no chão, olhou para cima e, definitivamente, viu seu bem-estar ir embora. Caiu duro, com o caderno rabiscado ao lado. Nos olhos, a imagem fixa das baionetas. Os chapéus para esconder os chifres. Os uniformes azuis para esconder a pele manchada de sangue. A nobreza assassina. Dois minutos depois, sentiu a humanidade voltar ao ambiente. Agora sim, poderia levantar-se. Dor nos joelhos. Dor nas costas. Dor na cabeça. Ensaiou uma reclamação qualquer e lembrou-se: antes a dor que a morte. Calou-se. Caderno nas mãos. Pé ante pé. Saiu dali. Seis anos depois, o resultado daquele três de maio.

El Tres de Mayo de 1808, Francisco de Goya

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Conto verídico.

Ele acordou e dirigiu-se à mesa. Cansados de esperar, todos já almoçavam. O constrangimento era palpável, facilmente pescado no ar. Ela não o recebeu com beijinhos ou palavras amorosas. Pelo contrário. Ela nem olhou no seu rosto. Seu pálido rosto. O gesto demonstou rancor, uma tentativa de desprezo e, até mesmo, um certo nojo. Nojo, não. Nojinho. O amor de um pelo outro era tão imenso que o nojo era um sentimento impossível. Seu prato, obviamente, estava vazio. Essa era uma boa desculpa para quebrar o gelo. Com toda a delicadeza que poderia expressar, pediu à ela que passasse o arroz. Como não houve resposta, decidiu pedir pelo feijão. De fato, o feijão é mais indicado para uma boa conversa. O silêncio permaneceu. Ele apelou para as batatas fritas. Qual é?! Quem é que não gosta de batatinhas?, pensava, enquanto o outro lado da mesa permanecia mudo. Desesperado, tentou a farofa, o bife, o suco e, pasmem, a salada. Doía ver que seus esforços tão simpáticos eram em vão. Largou os talheres de qualquer jeito e, indignado, levantou a voz. Eu prometo que não chego mais bêbado em casa! Agora me diz, pra que tudo isso? Como já era de se esperar, a falta de respostas foi a única resposta digna. Sem dúvidas, aquele almoço iria se estender por um bom tempo. E aos que ocupavam os outros dois lugares na mesa, restava a pergunta: Se em briga de marido e mulher ninguém mete a colher, o que fazer se a briga for entre mãe e filho?

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O vício.

Tremia de frio e suava em bicas. As mãos finas simulavam os toques de uma máquina de escrever, sem uma máquina de escrever. Os pés achatados encontravam-se do lado de fora da cama, movendo-se de cima para baixo. A boca chacoalhava, balbuciando algumas palavras extraídas de algum livro de Hemingway. Era a abstinência. A maldita abstinência. O telefone tocava, mas quem recebia a mensagem era a secretária eletrônica. Um editor engravatado de uma editora pomposa oferecendo uma quantia reservada a um por cento da população mundial. Os ouvidos bloquearam. Não queriam saber de nada. Pegou o cobertor e puxou-o, cobrindo a cabeça. E num canto do quarto, uma folha de papel subitamente em branco. A maldita abstinência.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Apertamento.

Sem se mover há um bom tempo, sentia-se incomodado. Olhava ao seu redor só para constatar que não havia nada que pudesse fazer. Nem para se divertir, nem para sair dali. Sem TV, sem videogame, sem namorada. Aquela sensação de nada era tudo o que podia ter, pelo menos por enquanto. E lá, no canto, todo embrulhado, lembrou-se do seu antigo lar, se é que ele pode ser chamado assim. O lugar era um saco, mesmo compartilhado com outros inquilinos. Um bando de porra loucas, em sua imensa maioria. Tanto que, de vez em quando, eram despejados por aí. Lembrou-se, também, da briga que foi para comprar a casa onde hoje morava. De fato, aquela foi uma oportunidade única. Daquelas que surgem uma vez na vida e outra na morte. E só. Percebeu a injustiça que acabara de cometer. Estava reclamando de barriga cheia. Mas não literalmente. A fome dava sinal de vida e a única coisa que havia pra comer era uma gororoba pseudo-nutritiva um tanto quanto nojenta. Já eram meses e meses naquela situação. Escuro, silêncio, chatice, gororoba. Sentiu uma aflição percorrer seu corpo frágil. Precisava sair dali. Urgentemente. Debateu-se de um lado para o outro num claro sinal de rebeldia. Tão jovem e tão bagunceiro. De fato, conseguiu chamar a atenção. Do lado de fora, um grito prolongado rasgou a calmaria que perdurava há tanto tempo. Um grito de mulher. Um grito de mãe. Se tudo desse certo, dentro de pouco tempo ele mudaria sua vida.
Ou melhor, começaria.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

O melhor conto de todos.

Onde quer que fosse, levava um bloquinho. Capa verde, umas cem folhas mais ou menos, portátil, de bolso. Fiel escudeiro. Era comum as pessoas perguntarem o que tanto ele escrevia no bloquinho. Era comum elas escutarem a mesma coisa. "Meu bloquinho alimenta minha mania", dizia. Uma mania um tanto quanto estranha, diga-se de passagem. Era fanático por rankings. De cinco, dez, quinze. Tanto faz, desde que fosse um ranking. Cervejas, bundas, times, peitos, filmes, matérias chatas, livros. Tinha de tudo um pouco no tal bloquinho, o vigésimo sétimo, até então. Os outros vinte e seis ele deixava guardado à sete chaves. Suas manias diziam respeito a ele. E somente a ele. Um dia, porém, ele quase deixa escapar o segredo. Chegou atordoado em casa e chamou pela mãe. "Ô, mãe! Mãe! Manhê! Cadê meus bloquinhos?", perguntou. "Que bloquinhos, Gilberto? O que você tá usando? Eu sabia que seus amigos eram má gente.", lamentou a mãe. Ignorou e passou batido. O alívio pelo segredo mantido veio depois, quando caiu em si. Ele sabia bem onde estava o bloquinho, mas estava atordoado. Os olhos meio murchos, a bochecha meio caída, assim como sua auto-estima. Entrou no próprio quarto sem bater. Abriu a gaveta e começou a procurar. Bloquinho quatro. Bloquinho treze. Bloquinho vinte e um. Bloquinho um. Finalmente, o bloquinho um! Levantou a capa verde e encontrou o ranking que queria. O mais importante de todos. Digno da primeira página do primeiro bloquinho. "O pior dia de todos" estava escrito. Pegou a caneta vermelha e preencheu o único espaço em branco da página. Primeiro lugar.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

F5.

Os olhos nervosos. A boca seca. As sobrancelhas impacientes. Mesmo imóvel na cadeira reclinável, ele nunca estivera tão agitado. Girava de um lado para o outro. Tomava latas e latas de Coca-cola, uma atrás da outra. E, com os dedos, brincava com seu umbigo quase encoberto pela barriga desproporcional ao resto do corpo (com a exceção do queixo duplo). De fato, era um homem nojento. De fato, seria virgem até sua morte, por infarto, aos quarenta e dois anos. Pegou seu boneco do R2-D2, intacto, ainda dentro da caixa. "O que acontece? Por que nada acontece? O que eu faço da vida agora?", cochichava ele. O robô não dizia nada. Nem o robô gostava dele. Pelo menos não na vida real. "RESPONDE ALGUMA COISA! EU PAGUEI CARO POR VOCÊ! EU VENDI MEU RIM POR VOCÊ!", do cochicho foi para os berros, numa fração de segundos. O simpático robozinho permanecia quieto. O silêncio não era culpa dele, mas sim da mente doentia do gordão. A caixa foi completamente rasgada, num ato irracional. "NÃÃÃÃÃÃÃO! O QUE FOI QUE EU FIZ?!", vociferou o rolha de poço, com os braços curtos estendidos para o céu. Aquilo não se fazia. Todo seu prestígio na comunidade de colecionadores estava espalhado pelo quarto, lado a lado com as ratazanas. Definitivamente, sua vida não fazia mais sentido. Tentou o F5 mais uma vez antes de se atirar pela janela. Na tela do computador, um animal muito parecido com ele era carregado por uns passarinhos cor-de-laranja. Twitter is over capacity.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

O ladrão de paciência.

Pegou o telefone e discou o número que queria. Fazia um sol delicioso lá fora. O céu ostentava um azul poucas vezes visto por aquelas bandas. Do quarto, dava pra ouvir a mulecada jogar bola. "PASSA! LADRÃO! FILHO DA PUTA, JOGA NADA!", gritavam. "Essa criançada de hoje em dia não tem mais educação mesmo", pensou o senhorzinho. Apesar disso tudo, ele não se exaltava. Era paciente que só ele. Só ele.
Terminou de discar. O telefone chamou. Chamou. E chamou de novo. Finalmente uma gravação atendeu. Dizia uma série de coordenadas, enumeradas de um a nove. Pro azar do senhorzinho, a que ele precisava era a nona. Apertou o número nove. "Ah, diabos!", exclamou. Mais uma vez a gravação dizia uma série de coordenadas. Nenhuma correspondia à dúvida dele. Teclou um número qualquer, a gravação respondeu: "No momento todos os nossos atendentes estão ocupados. Previsão de atendimento em quatro minutos". Fazer o quê? Esperou pacientemente, forçando um sorriso de canto de lábio.
Passaram-se seis minutos e alguém do outro lado atendeu. Finalmente um ser humano! O senhorzinho começou a explicar sua dúvida. No meio, foi interrompido pela atendente.
- Senhor, aqui não podemos resolver seu problema, senhor.
O senhor respirou e prosseguiu.
- Ó, Deus. Onde eu posso resolver isso?
- Estarei transferindo o senhor para a assistência técnica, senhor. O senhor pode estar aguardando?
- Claro, minha boa moça.

A gravação voltou, anunciando um tempo de espera de oito minutos. Oito minutos! Mas, tudo bem. O sol brilha lá fora e a criançada segue batendo bola. "ENFIA A BOLA NO CU, GOLEIRO FILHO DE UMA VAGARANHA!", continuavam a espernear os pimpolhos. O senhorzinho ficou embasbacado, mas ainda assim curioso para descobrir o significado da maioria daqueles palavrões, especialmente "vagaranha".
A musiquinha começava a dar nos nervos. Era uma mistura de notas aleatórias. Sol, sol, mi, fá, lá, lá, lá, sol. Pelo menos era assim que ele entendia. Olhou no relógio. Dez minutos haviam se passado. Começou a mexer a perna insistentemente. Aquilo era um claro sinal de nervosismo. Ou ansiosidade, o que era mais provável.
Finalmente, alguma alma caridosa no call center atendeu à chamada daqueles pacientes cabelos brancos. A voz dela era doce, suave, transmitia prestatividade. "Nossa, essa moça deve ser muito bela", pensou sozinho. A conversa se desenrolava tranquilamente, até que as coisas começaram a mudar.
- Senhor, vou precisar confirmar alguns dados seus.
- Claro, senhorita. Posso chamá-la assim?
- Não. CPF, RG, carteira de trabalho, número do cartão de crédito e endereço.
O senhor confirmou tudo, um por um, perdido em uma pilha de documentos.
- Obrigado pela atenção, senhor. Eu estou vendo aqui que você está sem sinal de TV a cabo.
- É! Logo hoje, que tem um filmão no canal das antiguidades. É com o James Dean!
- Já verificou se o aparelho está ligado na tomada? Se o cartão está inserido corretamente?
- Claro! Foi a primeira coisa que eu verifiquei.
- Senhor, já detectamos o problema. Você vai ter que fazer o seguin...
"No momento todos os nossos atendentes estão ocupados. Previsão de atendimento em quinze minutos", cortou a voz robótica.

A decepção tomou conta do olhar cansado do senhorzinho. Ele abriu a boca e um fio de baba escorreu, sem querer. A mão amoleceu e o telefone ameaçou cair. Só ameaçou. Puxou todo o ar que encontrou nos pulmões. Tranquilamente, colocou o telefone no gancho.
FIIIILHA DE UMA VAGA... foi possível ouvir do lado de fora, antes que os gritos fossem abafados pelo travesseiro. A mulecada entrou correndo. Uma chuva estava se aproximando, furiosa.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Eureka!

Sentado embaixo da árvore, na sombra acolhedora das folhas e galhos, tinha uma caneta na mão, um caderno no colo e nenhuma ideia na cabeça. Nem aquele lugar brilhante, fonte de inspiração de gênios como Newton e suas maçãs adiantara. O branco do papel era tão forte, mas tão forte, que seus olhos ardiam. E seu coração apertava. "Poxa vida, eu sempre fui o cara das ideias", pensava o jovem rapaz de cabelos amarelos e olhos de jabuticaba. Girava a caneta como um rockstar e suas baquetas. Mordia a tampa como uma criança e sua prova de matemática. Não se reconhecia. Nem se aceitava. Também pudera, estava lá há mais de duas horas e as coisas insistiam em manter-se iguais: um grande e sufocante nada. Tentou assobiar sua música preferida do Beethoven. Tentou, inclusive, reproduzir as melhores frases do Marlon Brando. Não adiantou foi nada. Estava pra desistir. Jogar a toalha. Quando veio o estalo. "Toalhas auto-secáveis! É claro, porra"! Aquele era seu primeiro palavrão em meses. Num pulo só, levantou-se. Dava pra perceber uma lágrima de felicidade escorrer do seu globo ocular esquerdo. Depois de umas cambalhotas e uns beijos distrubuídos aleatoriamente, voltou ao seu lugar. Caderno no colo, caneta na mão. "Agora só falta fazer funcionar", disse pra si mesmo. É. De volta pra prancheta, camarada.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Coisa de criança.

"Acorda! Corre! Me ajuda! Fogo!", ouviu sua mãe gritar lá do quarto, a duas paredes de distância. Levantou de súbito, apavorado. Na cabecinha, a falta de opções diante da situação. No coraçãozinho, o nervosismo incontrolável diante do calor violento que amolecia o papel de parede. Pegou seu ursinho e desceu escada abaixo. Deixou pra trás os gritos abafados da mãe, ainda lacrada onde outrora repousava tranquilamente. Mas, tinha que ser assim. O fogo não pergunta se você tá bem, nem se pode chegar pra bater um papo. Ele simplesmente vem. Desesperado, correu até o quintal e pegou a maior mangueira que viu. Ela ultrapassava seu tamanho facilmente e, com um pouco de esforço, também o peso. Mas, mesmo assim, o pequeno gigante carregou-a com suavidade, escada acima. Agora, sim. Era a hora da verdade. Ele e o fogo, o fogo e ele. De repente, sentia-se um hominho. Mirou firme, bem no foco do fogaréu. Após uns segundinhos, só sobrou ele, vencedor. Peito estufado, respiração ofegante. "Filho?! Filho?! Você tá aí? Acorda!", disse sua mãe, ainda nervosa. Finalmente, o pesadelo havia acabado. Levantou de súbito. Sua mãe batia na porta. Olhou para baixo, decepcionado. Ah, não. De novo, não!