segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A grande mãe. Capítulo III: Decisão.

E lá estava eu, cara a cara com meu fim. Dourado, frio, sem emoções. Parecia-se bastante com o Pai. Baixei a arma e verifiquei a quantidade de balas no tambor. Completo. Virgem. Engatilhei-a cuidadosamente, com carinho. Não é todo dia que eu posso atirar uma calibre cinquenta. Com certeza o impacto seria muito maior que a minha nove milímetros. Respirei fundo. Me senti preparado. Olhei para trás e vi Yuri, de costas para mim. Eu precisava dizer uma última palavra.
- Yuri?
- Sim?
- Adeus.

Ainda ajoelhado, fechei os olhos e apertei o gatilho com firmeza. Uma vez. A testa se abriu. Duas vezes. Cérebro no asfalto. Três vezes. Lá se vai o olho esquerdo. Quatro vezes. Adeus, nariz. Cinco vezes. Maxilar partido ao meio. Seis vezes. Rosto? Com um pouco de sacrifício me levantei e fui conferir o estrago que tinha feito com o velho Yuri. Acho que me excedi. Seis balas de magnum. Não precisava de tudo isso. Ele não merecia. Eu não tinha o direito. Meus sentimentos ameaçaram um motim, mas eu os contive a tempo. Abri o porta malas. Peguei-o no colo e joguei lá dentro. O olho e o maxilar ficaram no chão. Chutei-os para longe.
Abri a porta e entrei no carro, dessa vez no banco do motorista. Olhei para trás e Sergey estava em pânico. Completamente travado. Branco como um fantasma, violentas gotas de suor escorriam pela sua testa. A boca aberta, as mãos apertadas. Focalizei seu rosto com o retrovisor e dei partida no carro. Entrei na estrada a cento e vinte por hora e assim decidi permanecer. Vinte e cinco minutos me separavam da Fábrica. Infelizmente, eu teria muito tempo para pensar nos meus próximos passos. Fitei os olhos no horizonte. Branco, morto, sem graça. Depois de mim, a neve era a maior assassina que a Rússia já viu.
Infindáveis minutos depois, de longe já dava para ver a Fábrica. De fato, ela chamava a atenção. Hoje em dia, não se vê muitos outros portões pretos de três metros de altura, com uma estrela talhada em bronze no topo. Agora, se a entrada já chamava a atenção, o interior era um inferno gelado. Máquinas de triturar carne, cadeiras com algemas, materiais de tortura, armas, sangue e restos de corpos em decomposição. Era para lá que qualquer membro da Família deveria se dirigir, junto de sua carga viva ou morta, ao fim de uma faxina. Ironicamente, o local que deveria marcar o fim de uma faxina, era só o começo dela.
Parei em frente ao portão e desliguei o carro. Inclinei-me um pouco para trás e acertei meu melhor soco no nariz de Sergey. A reação foi imediata, assim como o sangue. Sem falar nada, desci do carro, alongando-me para abrir o portão de meia tonelada. Sergey veio logo atrás, com a cabeça inclinada. Não restava dúvidas de que ele tinha entendido a mensagem. O portão se abriu com um som perturbador, digno de filmes de terror hollywoodianos. Refleti sobre maneiras diferentes de fazer americanos sangrarem. A mais criativa foi trancá-los num ringue e jogar um único cheeseburger lá dentro. Entrei no carro e acelerei. Era isso. Eu estava novamente na Fábrica. Lar doce lar.
Um a um, as cargas e Yuri foram despachados. Alinhei-os um ao lado do outro. O traficante à esquerda, Tristan no meio e Yuri à direita. Sem nem pensar, retalhei em dez o corpo do traficante e fui passando as partes para Sergey, que as lançava no triturador. O nariz dele ainda pingava um sangue escuro. O vermelho, em contraste com a neve, era maravilhoso. Mais maravilhoso ainda eram os pedaços de corpo, que entravam relativamente inteiros e, em questão de segundos, viravam carne moída. Ó, violência, como és bela. Nunca me deixe. Por Deus, nunca me deixe.
Trabalhávamos como uma perfeita equipe. Sergey limpava o chão e eu o triturador. Era um trabalho sujo. Era um trabalho que eu realmente gostava de fazer.
- Cacete, Sergey! Pra que tanto capricho? Logo mais a neve derrete e lava o sangue.
- É isso. O sangue.
- Tá. É o sangue. E o que que tem o sangue?
- Eu não suporto sangue.
- Talvez esteja na hora de você fazer uma faculdade. – levantei a realidade.
- Entre uma faculdade e a sua família, você ficaria com o quê? - Sergey covardemente perguntou.
- Eu? Eu ficaria com meus colhões.

Como era de se esperar, Sergey escolheu o silêncio como resposta. E assim as coisas permaneceram por uns minutos. Bons minutos, diga-se de passagem. Até que, quando tudo parecia estar melhorando, um ruído rasgou e mijou em cima da minha tranquilidade. Segundos depois, quando meus ouvidos já estavam devidamente acostumados, percebi tratar-se de uma música. A mais filha da puta das músicas. Impaciente, procurei a origem daquela tortura por todos os cantos. A segunda ironia do dia. Em uma sala de tortura eu buscava uma maneira de dar um fim à própria.
E ao passo que a música continuava e minhas tentativas de encontrá-la eram frustradas, eu me tornava um poço de ódio, só esperando Sergey voltar lá de fora para aliviar minha raiva. Encostei perto do corpo de Tristan para pensar numa estratégia e percebi que a música estava cada vez mais perto. Grudei meu ouvido ao seu corpo e comemorei. Havia encontrado. A música parou. Puxei um objeto do seu bolso traseiro. Olhei. Um calafrio percorreu minha espinha em velocidade recorde. Tentei me manter corajoso, mas por uns instantes não consegui. Na tela do celular, lia-se Ludwig Kalashov, carinhosamente chamado de Pai.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A grande mãe. Capítulo II: Negociação.

Virei a chave e levantei a tampa. O cheiro subiu forte, impiedoso, embrulhando meu estômago. Os corpos ainda exalavam uma espécie de calor e o sangue ainda escorria, lentamente. Com muita calma, passeei com os olhos por cada um deles. Contei um total de dezoito furos no Tristan. E mais umas dezenas no traficante viado. Sorri orgulhoso, superior como sempre. Puxei toda a sujeira que encontrei dentro de mim e as cuspi em cima daquela pilha de lixo. Bati o porta malas com força, o que fez respingar um pouco de sangue e talvez miolos no meu terno preto. Yuri desceu do carro e veio ao meu encontro.
- Cacete, você não consegue parar de fazer sujeira.
- É assim que gosto das coisas, Yuri. Sujas. Reais.
- Ahhh, garoto. Um dia, que talvez pode nem chegar, você vai ver que não é assim que o mundo gira.
- É assim que ele gira pra mim. Não tenho do que reclamar até agora.
- Você já esteve no Japão?
- Como?
- No Japão. Você já esteve por lá?
- Claro que não. Nunca precisei fazer uma faxina por lá.
- Pois é. Há uns três anos atrás, fui até lá persuadir um Yakuza a fazer um harikari.
- Harikari? Pensei que você fosse um assassino, e não um diplomata.
- A maior arma que nós temos são as palavras, camarada. Enfim, depois de feito, parei num bar pra dar uma cagada e, ao dar a descarga, qual foi a minha surpresa quando vi que a água girava ao contrário.
- Sério?
- Sério.
- Tá, mas o que essa porra dessa água tem a ver com tudo isso?
- Tem a ver que, pra eles, a água girava pro lado certo, mesmo girando para o lado errado. É a mesma coisa que acontece com você e esse seu mundinho.
Parei para refletir por alguns segundos.
- Yuri?
- Sim.
- Talvez você tenha razão. – consenti, de cabeça baixa.
- É claro, meu bom garoto. Você pode aprender muito comigo. A vida é uma merda, eu sei. Mas ela não precisa ser sempre uma merda.
- Mas, me diga, quem eu vou culpar pela merda que nossas vidas é?
- Mas, me diga você, pra que um culpado, um responsável pela merda das nossas vidas?
- Justiça.
- Justiça? JUSTIÇA? Não seja tolo. O que foi que você disse agora pouco no carro, mesmo? Alguma baboseira sobre a inexistência da justiça e o reinado absoluto de leis fracassadas.
- Foi mais ou menos isso.
- Qual foi a última vez que você esteve em uma mulher?
- De graça?
- Claro.
- Nunca.
- Muitas coisas começam a fazer sentido agora. Sabe? Quando você se esquece do amor, o verdadeiro amor, acaba se lembrando dos sentimentos opostos. E esses, meu filho, ao contrário do amor, nunca mais vão embora.
- Yuri, você me falar sobre água de privada japonesa, tudo bem. Agora, guarde sua melação amorosa para suas prostitutas. Eu só quero saber uma merda de uma coisa.
- Diga, Bohr.
- O que eu faço agora?
- Sinceramente?
- De preferência.
- Honre suas marcas, sua história, sua família.
- É o único jeito, não é?
Yuri só concordou com a cabeça. Seu silêncio se esforçava para demonstrar tristeza.
- Então que assim seja. Eu só gostaria de uma coisa.
- O que quiser.
- Que fosse feito com a sua arma.

Mais uma vez, Yuri concordou com a cabeça. Buscou por uns instantes seu bolso traseiro. Estendeu-me sua Magnum dourada. Mesmo sem qualquer sol, ela reluzia bravamente. Somente quinze pessoas haviam visto um fim naquelas balas calibre cinquenta. É um número mínimo, considerando um homem com mais de mil e trezentas mortes no currículo. A aceitei de bom grado. Com um firme aperto de mãos e um olhar quase sincero, dei adeus ao meu velho parceiro. Yuri permanecia firme, integralmente intacto. Dei cinco passos na direção contraria. E qual foi a minha surpresa ao ver que, a cada passo, não me vinha nada à cabeça. Nenhuma lembrança ou memória, nenhum prazer ou desprazer. Só uma aflição, uma necessidade de cumprir com meu dever. Parei. Ajoelhei. Colei o cano em minha têmpora direita.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

A grande mãe. Capítulo I: Direção.

O ar dentro do carro está pesado demais para um pulmão maltratado como o meu. O responsável por isso eu não sei dizer quem é. Podem ser os charutos e cigarros insistentemente sugados pelos babacas ao meu lado. Pode ser o cheiro de sangue fresco que vem do porta-malas. Ou pode ser a tensão. Ouço um bater de dentes vindos do banco de trás. Faz frio lá fora, mas eu sei que o que Sergey está realmente sentindo é medo, o mais perigoso dos sentimentos. Ao meu lado, no banco do motorista, Yuri levanta a mão esquerda. Noto a existência de algo estranho embaixo de sua unha. Deve ser cérebro.
- Bohr. A gente precisa fazer alguma coisa. Você sabe disso. – Yuri me questiona, chacoalhando as pernas repetidas vezes.
- É claro que eu sei. E pelo visto eu sou o único aqui que ainda sabe onde está a própria cabeça.
- Seu moleque. Na KGB você não duraria duas horas.
- Você esqueceu que aqui não é a KGB. Não há justiça, só há leis, que para nós não existem mais.
- Seu bolchevista dos infernos. O trabalho era pra ser simples. Um passeio no parque.
Calei e consenti.

De fato, o trabalho era simples. O Pai considerava, no almaço com as instruções, como uma “pequena faxina”. Um traficante pouca bosta estava começando a incomodar as transações entre o leste e o oeste da motherland. Era entrar, erguer as armas, deixar que elas fizessem seu trabalho e sair, levando o mindinho como souvenir. Entrar foi fácil. A porta traseira destrancada trouxe à tona uma estranha sensação de boa vizinhança. E foi aí que a tranquilidade e o prazer em trabalhar chegaram ao fim. Barulhos estranhos vindos do quarto chamaram a atenção. Sergey foi na frente. Abriu a porta. Explodiu em gargalhadas. Eu cheguei depois, seguido de perto pelo Yuri. Diante dos meus olhos, dois animais, um dentro do outro, olhavam assustados para seus capatazes. Sergey só parou de rir quando descarreguei dois pentes da minha Kalashinokov no corpo suado das duas bichas.

Uns segundos de silêncio perfuraram a bagunça que se passava em nossas cabeças. Agora, ouço Sergey chorar. Ele sempre foi fraco. Um peso morto que, de vez em quando, se arrasta, como se pedisse clemência. É filho de Noukhaev, uma lenda na Família devido ao sadismo inexplicável. Deu conselhos ao Pai que o colocaram onde ele está hoje. E é só por isso que ele foi selecionado para juntar-se a mim e a Yuri, os líderes no ranking de mindinhos coletados. Yuri se vira em minha direção. Está tão perto, que posso sentir seu bafo de vodka queimar minhas narinas.
- Pensasse antes de atirar, seu verme. – disse, sem tentar esconder a irritação.
- Sodomia não é passível de julgamento. – respondi, tentando me manter são.
- Seus princípios não valem de nada quando estamos falando do filho do Pai.
- Não tinha como saber que aquela BICHA ERA O TRISTAN. BICHA DO CARALHO. TINHA UM CARA DE CEM QUILOS MONTADO NELE. TINHA UM PAU ENTRANDO NAQUELE LIXO TODO. – foda-se a minha sanidade.
- Isso não nos serve de nada agora.
- É.
- Você sabe o que vai acontecer, não sabe?
- O que vai acontecer depende do que será feito daqui pra frente.
- E depois disso?
- Depois disso o quê?
- Depois de tudo o que faremos daqui pra frente.
- Faremos? Eu sei o que eu farei, e quem quiser sobreviver que me acompanhe.
Ninguém demonstrou qualquer reação. Desci do carro e fui conferir nossas visitas indesejáveis.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Machos e suas machisses.

Encostado na parede pixada do bar, ele cruzava os braços e esticava as pernas, na tentativa de valorizar a pouca bagagem que carregava. Um charuto vagabundo pendia no lado direito dos seus lábios e um copo de bebida era esquentado pelas suas mãos. Estava lá há mais ou menos duas horas, praticamente imóvel, só trocando a perna de apoio, vez ou outra. A única parte de seu corpo que desobedecia à tendência eram seus olhos, inquietos e irritantes. Rabos incríveis, peitos extraordinários e pernas deliciosas eram sugados ate à última gota por aqueles olhos secos. Arrotou, peidou e coçou o saco. Tudo de uma vez só. Uma loiraça de um metro e oitenta e vestido preto colado virou a esquina, do alto de um salto alto tipo agulha. Parou tudo o que estava fazendo e começou a pensar no que falaria para a gostosa. Aquela era do tipo que merecia uma punheta e, inclusive, umas palavras.
- E aí, posso entrar?
A loira parou, fitou-o de cima abaixo, e respondeu.
- Entrar? Tá maluco? Entrar aonde?
O cafajeste riu, era a pergunta que ele queria.
- Em você, sua gostosa. Quero entrar todo em você.
- Entrar em mim? Como assim? Tipo quando você chega em casa e abre a porta? Ai, não tô entendendo. - o tipo fazia jus aos cabelos.
- Ó, vou ver se você entende. Esse sou eu - disse , esticando o indicador esquerdo - e essa é você - completou, unindo o indicador direito ao polegar direito -. Sacou?
- Mas por que eu sou a bolinha? Você tá me chamando de gorda? - perguntou, preocupada, auto-analisando suas curvas deliciosas.
- Não, caralho! Essa é a sua boceta.
- Boceta? A minha? Mas ela não é assim.
- Tanto faz. Eu tô pôco me fodendo para como é a sua boceta. Eu só quero meter nela.
- Meter nela? Você? Mas por que você não disse antes?
O machão não respondeu.
- Olha, isso eu não sei se posso prometer. Mas por que você não me paga uma bebida e a gente vê no que dá, gostosão?
- Ver no que dá? A única coisa que vai dar alguma coisa hoje é você, sua puta.
A loiraça riu, recebeu um tapa na lomba e foi acompanhando o homem bar adentro.

Aquele era o seu dia de sorte. Nunca uma mulher veio assim, tão gostosa e tão fácil. Cruzou o bar inteiro propositalmente, exibindo seu troféu amarelo. Puxou uma cadeira, ela também. Mandou descer duas garrafas da melhor cerveja da casa, o que não significava muita coisa. Fez seu melhor e mais conquistador olhar. Ouviu o telefone tocar. Era sua mulher.
- A-A-Alô, Amorzinho? É você? O-Oi, minha Vida!
Uma voz feminina e furiosa escapava do celular.
- Eu sei! Eu sei que tá tarde. É tudo culpa minha. Pelo amor de deus, me perdoa, minha Deusa! Não, meu Chêro! Não diz isso! Eu tô indo agora. Eu juro. Juro por tudo o que é mais sagrado. E só pra compensar meu atraso, hoje tem... Adivinha... Massagens nos seus pezinhos lindos!

Nesse momento, o homem lançou uma imitação de bebê que só foi melhor que sua tentativa de portar-se como um macho de verdade. Deixou dinheiro o suficiente para mais umas três doses em cima da mesa, desculpou-se, beijou a loira no rosto e saiu disparado, deixando suas bolas na parede pixada do bar.

sábado, 31 de outubro de 2009

Wake up call.

Cabeça baixa. Andava sossegado. Divertia-se chutando uma velha lata de cerveja pra lá e pra cá. Era só mais um dia na megalópole. Salário baixo, emprego inútil, casa vazia. Ergueu os olhos e admirou por alguns instantes as pessoas realmente felizes. Frações de segundo onde ele decidia mudar de vida. Aquela era a trigésima nona mudança do dia. Daquela volta pra casa. Mas estava tudo bem. A vida seguia, o ano estava só começando, e ele estava vivo. O metrô passava embaixo dos seus pés, fazendo seu corpo tremer levemente. Não sabia bem por que, mas aquilo sempre o fazia refletir sobre a imensidão, o universo, o preto. Essa porra toda. Como sempre, ignorou seus pensamentos e seguiu adiante.
Cinquenta metros à frente, um homem lhe ofereceu a bíblia. Recusou. Vinte metros à frente, um velho lhe ofereceu cocaína. Recusou. Cinco metros à frente, uma mulher lhe ofereceu o corpo. Também recusou. A vida não precisa de mudanças, quando essas não são bem-vindas. Finalmente chegou ao portão de casa. Tateou o bolso em busca das chaves e, enquanto o fazia, olhou para trás. Subitamente, parou a procura. Estava perturbado. As pupílas dilatadas e a boca seca. Esperou alguns minutos e seguiu seu caminho, deixando para trás a gravata de vigia e suas chaves. Dessa vez, o caminho seria diferente. Sem destino. E refletido em suas chaves, o brilho repetido das luzes de natal que enfeitavam a casa do vizinho da frente.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Vocação.

Era mês de junho, comecinho do inverno. Com onze anos recém completados, cabelinho arrumado e gravata borboleta, desceu as escadas e cumprimentou os parentes. Depois de umas tias gordas e uns primos valentões, foi deleitar-se nos presentes. Roupas, roupas, roupas, um peixinho daqueles que dão de graça em feira de animais. Já podia sentir seu coração se partindo, diante de tantas decepções. Porém, depois de todo esse lixo, veio o luxo. Lá no fundo, quase esquecida, uma câmera novinha. Preta, 35 mm, lentes extras. Tudo o que tinha direito.
Olhou furtivamente para os lados. Uma das tias pegava uns salgadinhos e colocava na bolsa. Os tios falavam de futebol e tomavam vodka, trazida sem o consentimento da mãe, que por sinal, não saia da cozinha. O pai, que tinha acabado de acordar, já roncava novamente na velha poltrona carcomida. A barra estava limpa. Vestiu o casaco, passou a câmera no pescoço, abriu a porta e saiu. Nevava lá fora, pra variar. Nem quando ganhou a edição limitada do Senhor Furacão Fúria sentiu-se animado dessa maneira.
Fotografava tudo o que via pela frente. Neve, plantas, bichos, carros, asfalto, pessoas, chapéus. Tudo era banal e, ao mesmo tempo, lindo. Um dia ele sentiria falta daquela ingenuidade toda, mas ainda não sabia disso. Tentava focar em uma janela até que, no meio daquela diversão sem fim normalmente definida como cotidiano, parou por um instante. Baixou a câmera, lentamente. Estava nervoso, com medo. Nossa, e agora? E se alguém me ver aqui parado?, questionava-se, sem se mover. Seus pés estavam congelados, mas não pelo frio, e sim por uma ordem vinda diretamente do seu cérebro. Aquela cena pedia mais que um clique.
Subiu a câmera ao alcance dos olhos. Mirou bem, calculou cada instante milimetricamente. Era como se ele fosse um profissional, como se soubesse exatamente o que estava fazendo, sem saber que aquele era só seu instinto se manifestando. Pronto. Os ajustes estavam perfeitos. Naquele instante, sua lente era seu globo ocular. Clicou. Clicou novamente. Clicou mais uma vez. Abriu um largo sorriso. Uau, que mulher é essa?!, disse baixinho, antes de clicar mais umas três vezes. Dia de sorte. Jovem daquele jeito, já sabia o que queria ser quando crescer: voyeur.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Diálogo #2 - Terceiro grau.

Homem de meia-idade, solteirão e do tipo largado, acorda no meio da madrugada com uma luz verde no quintal. De imediato, veste um roupão de listras vermelhas e corre para conferir. Ao abrir a porta de vidro, depara-se com um alienígena tirando os trajes espaciais para dar um mergulho na piscina.
- CREIO EM DEUS PAI! O QUE É ISSO?! - berrou o tiozinho, com um pulo pra trás.
- Xindschnaus Milaus Drenaus. - respondeu o ET, estendendo a mão de sete dedos finos e azuis.
- Meu, o que que você tá falando?
- Olá!
- Olá?
- É! Olá! Foi mal, é que eu esqueci de ligar o tradutor.
- Tradutor? Mas você tá pelado, cara!
- É embutido.
- Embutido? Mas entra por onde?
- Velho, na moral, você tá fazendo perguntas demais, não acha?
- Perguntas demais? Eu? Tem certeza? ALÔ?! TEM ALGUÉM AÍ?!
- Já que é pra ficar nessa de perguntar: você não vai me oferecer uma cerveja ou algo do tipo?
- Não! Claro que não! Você chega assim, com essa... essa... Isso aí é uma rôla?
- Ah! Vai arranjar o que fazer. Puta cara chato.

Irritado, o alienígena sobe seus trajes espaciais e entra sem qualquer cerimônia, esbarrando propositalmente no ombro do tiozinho, que, antes de entrar, fica parado, por uns segundos fazendo medidas imaginárias com as mãos ao mesmo tempo em que olha para as partes baixas.
- Então, onde é que fica a parte boa dessa casa? - o amigo espacial questiona.
- Você quis dizer cachaça? Fica aí à sua direita, nesse armário com a porta quebrada.
- Hummm... Achei! Mas, porra, Velho Barreiro? Não tem algo de qualidade aí?
- Não, só Velho Barreiro. Homem que é homem bebe Velho Barreiro.
- Eu não sou homem, esqueceu?
- Esquecer eu não esqueci, mas até agora eu não sei quem ou o que você é.
- Puxa uma cadeira aí que eu explico.

O tiozinho obedeceu e sentou-se de frente com o ET. Uma dose de cachaça foi servida, fizeram um brinde e mandaram numa talagada só. Outra dose foi servida e repousou nos copos enquanto a conversa se desenrolava.
- Então, o que você quer saber?
- Pra começar, qual é seu nome?
- Lá no meu planeta é Alundrabumbalumba. O equivalente a João por essas bandas.
- João?! É o meu nome! Mas, vem aqui, xará, que porra de planeta é esse?
- É um planetinha que fica um pouco depois do sol, chama-se Othac Arp Ohlarac.
- E o que você quer aqui, mais especificamente na minha piscina, com a rôla de fora? Aquilo era uma rôla, né?
- Sei lá. Eu só queria me divertir um pouco. Não tem nada pra fazer lá onde eu moro. Não tem mulher, não tem cachaça, não tem guerra, nem futebol. E eu não comento sobre minha rôla.

João, o alienígena, manda outro copo de Velho Barreiro pra dentro. João, o ser humano, acompanha.
- Cara, desculpe dizer, mas você fez merda. As coisas legais acontecem lá nos Estados Unidos.
- Estados Unidos o caralho. Já tá batido. Tô fora de viajar três bilhões de quilômetros pra encontrar meus conterrâneos. Eu quero conhecer gente nova.
- Mas, cara, aqui não tem porra nenhuma pra fazer.
- Como não? Tem cachaça e tem você.
- E daí? Só isso, mais nada.
- Na moral, alguém precisa de algo mais?
- Como assim?
- Cachaça e amigos, velho. Só isso basta.
- E-E-E-Eu? Seu amigo? É mesmo?
- Claro! Você é foda pra caralho, cara!
- Você também é foda! Você é foda demais! Eu te amo, cara!
- Eu também te amo! Dá cá um abraço!

Os dois mandam outra dose e se abraçam calorosamente, com tapinhas nas costas.
- Ei, mas pera aí. Não é nada contra você, amigo humano, mas falta uma coisa.
- O quê? Amendoim?
- Não, cara!
- Batata frita?
- Não! Faltam peitos! Muitos peitos! Peitos grandes!
- Ahhhh, isso eu tenho aos montes. Dá um pulo ali na geladeira.
- Na geladeira? Vocês humanos fabricam peitos?
- Bem, fabricamos, de certa forma. Eu explico depois. Mas eu não quis dizer dentro da geladeira, e sim fora.
- Esses papeizinhos aqui?
- É! Aí mesmo! É só você escolher.
- Hummm, deixa eu ver. Mimosa, peitos durinhos, bunda mais ainda, valor a negociar, Tá se achando demais, não quero. Sheila, ninfetinha com corpo de mulher, faço tudo, R$50,00 completo, Parece bacana, que cê acha?
- O preço tá bom. Ela costumava cobrar mais caro. Você tem alguma grana aí?
- Minha moeda não vale aqui, bro.
- Pior que é. Tá bom, vai. Pode chamar que eu banco essa.

O alienígena pegou o celular com uma mão, o papelzinho da Sheila com a outra, o copo de Velho Barreiro com outra e apontou para o tiozão com a outra. Era como se eles se conhecessem a tempo.
- Cara, acho que esse é o começo de uma grande amizade.
- Ou, no mínimo, de uma grande foda. A Sheilinha arregaça.
- À nossa!
- À nossa!

Homenagearam os mortos. João deixou cair um pouco de cachaça no chão, enquanto o outro João jogou um pouco de cachaça pro ar. Mandaram a última dose daquela garrafa pra dentro e já pegaram outra no armário. Aquela seria uma longa e esquisita noite.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Diálogo #1 - Sargeta.

Fim de tarde em São Paulo, o termômetro marca vinte e três graus, mas oscila de vez em quando. Na esquina de uma das ruas mais movimentadas da cidade, um engravatado encontra um mendigo encostado numa parede. Na parede lê-se É NÓIZ. O mendigo tem um cheiro de carniça dos brabos, talvez oriundo do cabelo duro e da camiseta Suvinil do Corinthians. O oposto do engravatado, que, orgulhoso, veste um terno Armani e uma gravata de seda vermelha que, assim como o sapato de couro preto, vem da Itália. O sujismundo no chão estende a mão.
- Um trocado? - pergunta, humilde, o mendigo.
- Um trocado?! UM TROCADO?!
- É, broder. Um trocado. Por que não?
- Escuta aqui, "boroder", você sabe o quanto eu trabalhei pra ganhar esse tal trocado?
- Hummmm, xô pensar...
- Xô pensar o caralho! XÔVER A PUTA QUE TE PARIU! Por que você não levanta essa porra desse seu rabo dessa porra dessa calçada e vai procurar um empre-
- Avaliando que, mesmo com mais de cinco anos, seu sapato ainda brilha como novo e o seu terno, no fim do expediente, ainda não demonstra o menor sinal de trabalho. Que a única coisa um pouco fora do lugar são os seus cabelos e que o seu vocabulário é a mistura de uma criança da segunda série com um aviãozinho de Pirituba, posso concluir que você é o chefe, o manda-desmanda, o filho da puta.
- Olha a.... Ma-ma...
- Calma, meu amigo, eu não terminei. Só pra fechar, você ainda enfeita a testa da mulher, dando uma fodida na secretária. E por sinal, a sua mulher, aquela gorda, é a filha do presidente que, gentilmente e nepotismamente, lhe deu este emprego.
- Filho de uma vagabunda, eu vou enfiar meu pé no seu-
- Acertei, não é?
- Éééé... Bem... É que... Sa...
- Olha, eu adoraria ficar aqui, trocando uma ideia, mas eu tenho que trabalhar, cara. Então, vou repetir a pergunta: Acertei, não é?
- Acertô.
- Ok, muitíssimo obrigado, meu chapa. E então?
- E então o quê?
- Um trocado?

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Paraíso.

Corria desesperadamente há uns bons minutos. E, na mesma velocidade dos seus pés, pensamentos rasgavam sua mente. Quando isso vai parar? Pra que continuar fugindo? Olhou para o céu e enxergou o azul transformar-se num laranja perturbador, para logo em seguida voltar a ser azul novamente. Ao menos as duas luas negras ainda estavam lá. Respirou aliviado com o pouco de fôlego que ainda restava em seus pulmões e voltou seus olhos em direção ao horizonte, logo após as árvores que choram. Ouviu o urro de uma besta. Apertou o passo. O desespero era tanto que nem parou para olhar os corvos que se alimentavam dos olhos de um cadáver ainda fresco. Mesmo aquela sendo uma cena corriqueira, merecia uma espiada. Afinal, são olhos. Olhos e corvos. A intensidade dos urros aumentou. Raios explodiam aos seus pés. Nada o faria parar. Passou pela velha pirâmide que, outrora, serviu de abrigo para alguma divindade com fetiche por pés. De fato, a tribo dessas bandas sempre foi muito estranha. Sentiu um hálito podre invadir o ar. Seria aquele odor nativo dos esgotos do inferno? Que nada. Todo mundo já sabia que o inferno era nada mais, nada menos, que um puteiro. O demônio em pessoa assumiu isso no programa da Oprah. Aquele cafetão. Lembrar do demônio sempre o fizera rir, mas não dessa vez. Justamente quando ensaiava um sorriso preguiçoso olhou pra trás e, sabe-se lá como, deu de cara com a besta, sedenta por crânios. Dez metros de altura. A cabeça de leão, o corpo de cavalo, os pés de elefante, os tentáculos de kraken e os dentes de tubarão. Uma imensidão negra envolveu-o completamente. Seu corpo estremeceu só em pensar que aquela era a sombra da sua pata. Uma das seis patas. Deu adeus aquele mundo amaldiçoado e acordou. Caralho, sussurrou no sofá estampado da casa dos pais. A agulha ainda estava picada na veia.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Rotina.

Todo santo dia era a mesma coisa. Acordava junto com o sol, tomava uma bela xícara de café com leite e melecava-se com meio pão velho e uma pitada de manteiga. Depois era só vestir as velhas botas, o chapéu de boiadeiro, pegar sua maleta e por o pé na estrada, em direção à labuta. E da mesma forma que seu despertar, seus dias desenrolavam-se sem novidade nenhuma. Honestamente, qualquer escritor precisaria ter a loucura como pré-requisito para querer contar a história daquele homem tão desinteressante e, ainda asism, tão rejeitado.
Sim, rejeitado. Era só ele dobrar a esquina do boteco sustentado à base de cachaça e entrar definitivamente no velho e deteriorado centro da cidade que os olhares e humilhações começavam. Quem via de longe achava esquisito. Um senhor com mais ou menos sessenta e dois anos causar tanta repulsa assim. Pela padaria ele passou batido, o episódio da cusparada na cara ainda era fresco em sua memória. Na loja de bijuteria ele arriscou se encostar na parede e, até mesmo, botar sua velha maleta no chão. Mas antes que ele ousasse abri-la, a velha gorda toda coberta de ouro vagabundo corria em sua direção, com a mão espalmada. Pé na tábua, meu senhor.
Ótimo, agora sim, pensava ele. A primeira rejeição indicava o começo do seu dia. Acelerou um pouco o passo. Olhava atentamente ao redor, segurando sua mala com certa fixação. Vagabundos, sanguessugas, desprovidos de qualquer capacidade mental!, resmungava baixinho, evitando maiores confusões. Depois de uma quadra, olhou pelo vidro da pizzaria. Aparentemente, a barra estava limpa. Encostou-se na parede, colocou a camisa para dentro da calça e a maleta no chão. Levou a mão até ela, com o claro objetivo de destrancá-la. Não deu tempo.
- Ô, pá! Vá te a merda, gajo! - esperneava o português de dois metros, dono da pizzaria.
- Vá te a merda você, imigrante de merda, usurpador das maravilhas que só nosso país a de prover. Violentador de índias. Profano! PROFANO! - respondeu o velho mal visto.
- É louco! O senhor é louco! Toda semana aguentá-lo em minha propriedade, ô pá! Suma! Vá te daqui! Vá te pra longe!

Não adiantava discutir e o menor sinal de aglomeração espantou o velho dali. Segurou a maleta junto ao peito e andou sem rumo, apreensivo. O ritual se repetia, até que houve uma interrupção. Uma criança de mais ou menos seis anos estava distraída, o velho também. O choque foi forte. Ambos caíram pra trás. O chapéu voou para o meio da rua. O Comandos em Ação para perto do ralo. E a maleta, meu Deus, a maleta aterrisou ao lado da criança. Aberta.
- FECHE OS OLHOS, PEQUENO ESPIÃO! VOCÊ FEZ DE PROPÓSITO, NÃO FOI?! VOCÊ É UMA PRAGA. EU QUERO RIR EM CIMA DO SEU CAIXÃO. - disse o senhor, correndo em direção à maleta.

Ninguém mais achava aquilo normal. Aquele velho já estava passando dos limites. A criança com a bunda suja saiu correndo para os braços da sua mãe, que coincidentemente era cunhada da gorda da loja de bijuteria, que estava bem do lado do chinês da pastelaria, que fica bem ao lado da padaria do italiano, que é um grande amigo do português da pizzaria, que é casado com a irmã do árabe da sapataria. E o pior de tudo é que eles eram só um terço da multidão que formava um círculo ao seu redor. Exatamente naquele momento, ele sentiu o peso do mundo em suas costas. Ninguém falava nada, mas cada olhar, cada dedo estendido era uma bala que atravessava seu coração já cansado.
De repente, alguém gritou lá do meio PEGA O FILHO DA PUTA!. Pronto, foi o estopim para o círculo se fechar. Enquanto a manada de homo sapiens aproximava-se com passos ritmados, o velho segurava sua pasta com força descomunal. Apertava-a com tanta força que o couro já velho começava a descascar em suas mãos. Eles estavam cada vez mais pertos. Um tênis voou, acertando-o bem na face esquerda. Mais uma vez, foi ao chão. Fechou os olhos e, apesar da idade, colocou-se em posição fetal, abraçando a maleta com um aspecto maternal. O amargo gosto da ironia.
Não havia mais escapatória. O fim da vida do velho chegara dois anos mais cedo. Ele só precisava acostumar-se com a ideia, nos poucos segundos que lhe restavam. Então ouviu-se um som. Pareciam sinos, pareciam harpas divinamente angelicais, mas eram sirenes. A multidão enfurecida começou a dispersar-se, com semblante inocente. O amargo gosto da falsidade. Os carros pararam e os guardas vieram. O negro pegou o velho no chão, o branco pegou a maleta. Erro de principiante.
O velho começou a enfurecer-se, mesmo recém despertado de uma experiência com a morte. Não teve papo. Uma paulada na nuca e seu corpo amoleceu, direto para o camburão, no banco de trás. No banco da frente, os guardas buscavam uma maneira de abrir a maleta. Depois da terceira tentativa, conseguiram. Lá dentro, jaziam dezenas de livros. Na capa, acompanhando uma foto do senhor, jaziam as seguintes palavras, em fontes garrafais: Histórias Já Velhas. Surpreso, o policial branco virou-se para o negro.
- Tem que ser louco para querer contar a história desse velho fracassado.
E do banco de trás, ouviu-se:
- Prazer, louco.