segunda-feira, 18 de abril de 2011

E então Jesus abaixou a cabeça e sorriu.

Ele a espiava com o canto do seu pequeno olho. Atrás da escada, sem fazer barulho, prendendo a respiração. Estava completamente pronto. Sabia cada movimento dela, conhecia sua rotina de cor. Ela lá, sentada na melhor poltrona do mundo. De um vermelho que combinava perfeitamente com o carpete vinho. Os desenhos davam voltas em seus elefantes e seus deuses indianos que ela, no fundo, desconhecia completamente e faziam daquele estofado o melhor estofado do mundo. Ao menos aos olhos dela. Frente àqueles olhos que já viram de tudo, aquela era a melhor poltrona do mundo. E era um imenso orgulho passar suas tardes ali. A bíblia nas mãos suavemente manchadas. Manchinhas escuras que gritavam “Dever cumprido”. Ela passava saliva nos dedos e virava a página. Era um ritual. Página após página. Palavra após palavra. Rezando baixinho para si mesma, falando só para quem ela realmente queria que escutasse. A casa em um silêncio profundo que dizia muito mais do que se podia imaginar. Os cabelos vermelhos devidamente pintados na mesma cor das longas unhas. A mesma idade há anos e anos e anos. Sessenta e dois, ou algo assim.
E ele ainda lá, embaixo da escada. Espiando e esperando o momento certo. Ela sabia muito bem que ele estava lá. E, na verdade, ele também sabia que ela sabia. Mas assim tudo ficava mais interessante. E seu mundo ainda era colorido demais e ingênuo demais e imaginário demais para que aquele momento fosse estragado por algo tão chato como a verdade. Oito anos recém completos. O corpo gordinho, o cabelo ruinzinho. Toda aquela inocência era material de sobra para os amiguinhos da segunda série. Mas ele não ligava. Contanto que momentos como aqueles continuassem a se repetir, ele não ligava. A vidinha era bonitinha, afinal. Mas ele permanecia com os olhos bem abertos. Alerta com toda a capacidade que sua pouca idade permitia. A respiração ainda devagar, os pés meio trêmulos de cansaço e as mãos nervosas apertando o canto da parede.
Foi quando o momento chegou. Ele, o sinal. Ali, estampado no bocejo longo e de direito. A bíblia quase que fecha, tamanha a força daquela boca aberta e aquele som gostoso de ouvir. Uooooooon, pela sala mais calada que o mais calado dos lugares no mais remoto dos destinos. Até que ele, num só pulo, caiu bruscamente na frente dela. Os olhos brilhando, a língua nervosa pra falar o que vinha ensaiando há tanto tempo. As mãos meio que sem saber o que fazer, às vezes mexendo no estofado da poltrona, às vezes dando pequenos soquinhos no joelho dela. E ela lá, com aquele sorriso de sempre, meio tímido, meio sem graça, mas mais sincero do que qualquer outro gesto de qualquer outra pessoa.
- Ô Vó... – disse ele.
- Oi, querido... – disse ela.
- Ô Vó, sabe o que é? É que eu to querendo ir lá pra cima.
- Sei. Mas por que você não vai? – ela sabia a resposta, mas adorava aquele joguinho.
- É o homem, Vó. O homem tá lá.
- Mas, Victor, qual é o problema?
- Poxa, Vó, você sabe, né... Ele fica lá, me olhando, com as mãos abertas. Eu não gosto. É estranho.
- Mas, filho, ele não vai te fazer nada. Ele é bom, filho.
- Vó! Ele tem aqueles olhos fundos, Vó! Eu não consigo olhar pra ele, Vó! Tira lá pra mim, por favor, por favor, por favoooooooor.
E ele se debruçava nas suas pernas finas e ainda dispostas mesmos após tanto tempo. E ela dava a risada mais gostosa que aqueles fins de semana de quinze em quinze dias podiam proporcionar.

Calçou devagar aqueles chinelos tão velhos. Não comprava um novo porque simplesmente não precisava. Por que gastar dinheiro com chinelos? Existiam coisas na vida mais importantes do que chinelos, como, por exemplo, resolver aquela situação tão urgente. Subiu as escadas, degrau após degrau. Com calma, sem pressa. Aproveitando aquela situação toda. Olhando para trás com o canto dos olhos para ver a sua cara apreensiva. Aquelas mãozinhas dele no peito, como se sua própria vida dependesse dela. E, ali, ela se sentia mãe mais uma vez. Quarenta longos anos depois, ela era mãe mais uma vez. A melhor sensação do mundo para qualquer avó. Ela chegou ao segundo andar e à fonte de todo aquele pavor. Toda aquela ansiedade. Lá de baixo, ele gritou.
- VÓÓÓÓÓ, POSSO SUBIR? – perguntou, a voz trêmula de preocupação.
- Pode. Sobe, meu filho.

Ela mal respondia e ele passava correndo por aquelas escadas e por aquele terror todo direto para a televisão e aquele mundo de mentirinha dentro do seu próprio mundo de mentirinha, deixando-a livre para seus sorrisos sinceros e seu cheiro inesquecível e seus rituais vespertinos na melhor poltrona do mundo. E, em cima da estante, um quadro de Jesus Cristo coberto por um pano de prato não tão sagrado assim. Ele também sorria.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Que Deus me proteja do inferno que se abaterá sobre minha vida nas próximas horas.

Eu falei alguma coisa assim e comecei a beber. O relógio marcava alguma coisa entre as dez e eu bebia alguma coisa com pouco álcool por algum motivo que não devia significar alguma coisa pra mim. Era uma noite de incertezas e eu me comportava como se ainda tivesse idade para isso. Vinte e um anos. Eu bebia em casa, sozinho, me preparando para beber no mundo real, também sozinho. Até aí nenhuma novidade. Terminei, entornei mais algumas cervejas e de repente eu já me sentia pronto o suficiente para os outros seres humanos. Me sentia merecedor deles, me sentia parte daquela massa toda. E era tão acolhedor e tão quente lá dentro. A sensação era boa e subia pelas minhas mãos, entrando pelas minhas veias e saindo pelos meus olhos em forma de brilho. Tudo isso por causa de seres humanos. Ratos e tudo mais. E eu numa festinha mental de quinze anos, dançando valsa, apaixonado e usando um vestido lindo. E tudo vinha em ondas pra mim. Enfim, ganhei as ruas.
Ser sozinho já não tinha a mesma graça de antes. Não me fazia melhor do que ninguém. Não transmitia aquela ideia de SUPERIORIDADE. Eu não era mais o cara misterioso sentado no canto do bar sozinho, tão sozinho, tão, tão sozinho. Eu era só o cara que talvez mate todo mundo aqui dentro, escrevendo o nome da ex-mulher na parede com sangue, antes de se suicidar. O que talvez fosse a resposta para meus problemas de falta de atenção. E vocês sabem bem que eu me alimento dessa porra. São os olhares que me fazem conseguir enxergar um caminho à frente. Se não for de outras pessoas, o do espelho já basta por algum momento. Um reflexo e um tanto de uma falta absurda de personalidade e uma autoestima estupidamente forçada e mais um monte de coisas que me classificariam como Lixo egoísta ou Porco para as meninas bocetudinhas desse mundo. Claro, como se elas não gostassem de homens assim. Estúpidos buracos. E eu ouço gritos vindo de algum lugar e esse talvez seja meu subconsciente me mandando parar antes que eu comece a falar sobre bocetas e amores novamente. Minha vida por continuar agindo como um porco e toda a imagem que construí pra mim. O que você talvez não perceba e elas não percebam e quem me ama não perceba é que a única coisa que eu faço é substituir coração por boceta. E eu não serei mais direto que isso. São as regras do jogo, minha linda subconsciência.
Mas os gritos não vinham da minha subconsciência, mas sim de algum lugar não longe da onde eu estava, que eu também não fazia a mínima noção da onde era. Caminhei tranquilamente até lá. Se desse tempo, tudo bem. Se não desse tempo eu caminharia normalmente com um pouco de remorso fingido. Tudo para agradar Deus Nosso Senhor. Mas ser herói nos dias de hoje não vale a pena, vocês sabem e quando eu cheguei ela ainda gritava. No chão, do jeito que saiu do ventre divino de sua mãe, aquela santa. Tinha cabelos mais escuros que a noite e dentes mais claros que o dia. Era linda. Linda demais para o herói que teria nessa noite. Não diferente de todas as outras mulheres desse mundo. Nunca fui, nem nunca serei merecor delas. Ou talvez elas que não sejam merecedoras de mim. Enfim. Cheguei mais perto e ela ainda gritava, ainda mais alto dessa vez. Ninguém por perto.
- Linda menina. Anjo de cabelos escuros e dentes brancos. Minha vida, minha existência. - essa foi minha abordagem maravilhosa. Ela olhou pra cima.
- Sim? - os olhos piscavam num clamor desesperado demais até pra mim.
- Cala a boca. Para de gritar e cala a sua boca. Você vai acordar os GATOS e CACHORROS e VIÚVAS.
- BOA, VITO. MANTÉM A CARCAÇA. GRANDE BABACA. - essa foi minha consciência falando.
- Ser sozinha é um inferno, sabe, Meu Homem? - essa foi ela falando.
- E quem garante que o inferno seja muito pior que o paraíso?
- Ninguém. Mas a gente precisa escolher entre um ou outro. Não existe meio-termo para essas coisas.
- Não acredito que suas palavras sejam tão lindas quanto você.
- Não acredito que seja você que a noite me reservou. - senti uma infelicidade por trás disso.
Essa foi minha deixa. Segurei-a pelos ombros, olhei no fundo daqueles olhos tão tão tão pretos. E a ajudei a se levantar. Saí andando sem dizer mais nada. Alguns passos à frente, barulho de saltos apressados. Ah, aquele barulho maldito. E que Deus me proteja do inferno que se abaterá sobre minha vida nas próximas horas. Ela parou do meu lado, olhou para mim e bocejou o maior bocejo do mundo. E eu causo essa reação nas pessoas. Me diz você. Continuei andando. Toc toc toc toc toc toc atrás de mim.

Compramos algumas cervejas no caminho. Um brinde desperdiçado, como todos os outros. Bebemos normalmente. Sem pressão ou impressão. Sem dizer palavra alguma. Sem as estúpidas regras de bons modos da sociedade. Um pouco mais a frente, um lugar que talvez valesse a pena. Um lugar à altura da minha presença e toda a aura de mistério e sabedoria que há por trás disso e todo o meu intelecto e toda minha capacidade de terminar frases com algum palavrão e tudo o que eu nunca fui, mas sempre quis ser. A cerveja era barata e todo o resto caro demais. Ou talvez a única coisa que compensasse na vida fosse a cerveja e os amigos e falsas alegrias que ela nos traz. Dava pra ver o céu dali de dentro. Estrela nenhuma sobre a gente. Um beijo no rosto e ela foi viver a vida dela com alguém que fosse completamente o oposto de mim. Algo mais próximo do homem ideal, ou do ser humano ideal.
Tocava Michael Jackson e Rage Against the Machine e mais algumas coisas que se fazem hoje em dia. E aquele negrão sujo ainda era superior a todo mundo. Eu pensava em milhares de coisas. Em ex-mulheres, antigas histórias, velhas risadas, lágrimas recentes demais, o amor da minha família e a falta de amor que eu tenho por mim mesmo. Mas tudo o que eu penso é lixo desde que eu nasci. Eu não valho a pena de forma alguma. Nem meus pensamentos mais lindos compensam. A música batia, eu me mexia de um jeito muito, mas muito estranho. Algumas pessoas olhavam e eu fingia não ligar, quando na verdade eu ligava até demais.
A bebida seguia seu ritual de não fazer efeito algum por mais que eu bebesse e aquilo cada vez mais se manifestava como um imenso problema para meu convívio comigo mesmo e meu reflexo no espelho. Lixo egoísta, como diziam elas. Elas. Elas. Elas. Muitas delas ao meu redor. E eu sem coragem ou sem vontade alguma de falar alguma coisa. Cheiro de álcool, perfume, suor e boceta. Só mais uma noite normal num mundo que gira errado. Ou numa cidade que corre demais e acaba perdendo sua humanidade junto com seus milhões de almas irreparáveis por palavras ou qualquer outro gesto verdadeiro de carinho. Amor e amores correndo atrasados pro trabalho e o ônibus lotado de ódio demais. E minhas pernas velhas acusavam cansaço e eu precisava de uma cadeira mais uma cerveja barata e um pouco de espaço.
Depois de um tempo, consegui. Encostei a cabeça pra trás e olhava pro céu. Ainda sem estrelas, nenhum sinal de vida lá em cima e, pensando bem, nem aqui embaixo. Um babaca esbarrou na minha cerveja e uma boa parte dela ficou pelo chão. Ele deu um sorriso sem graça, pediu desculpas, quis apertar minha mão. E tudo o que eu fiz foi apertar a mão dele de volta. Eu não era mais o mesmo. Aquela vontade toda, aquela necessidade em ser o mais forte, o mais ignorante, o mais homem. Aquilo tudo não existia mais ali. Eu só queria um pouco de humanidade, um cachorro, ficar bêbado novamente e aceitar o fato de que eu sou assim e ninguém gosta de quem é assim. Foi aí que eu ouvi mais uma vez. Toc toc toc toc toc. Aquele barulho de novo, aquele cabelo preto e aquele sorriso branco.
- Pra você se sentar do meu lado, sua noite deve estar realmente um lixo.
- Algo do tipo.
- Me diz: por que chorar e gritar, sozinha, numa noite sem nenhum traço de esperança?
- Me diz: por que você quer saber isso?
- Quero medir o tamanho da minha besteira ao tirar você do chão.

Ela não me falou o motivo daquilo tudo, mas falamos sobre a vida e sobre Bukowski e a minha infeliz e mundialmente famosa literatura e mais algumas coisas que não faziam lá muito sentido, tipo amores perdidos, amor de mãe, amor de pai, amor de pau e todas as outras sensações que pudessem emanar de um coração tão perdido quanto o meu, o dela, o seu e o de Jesus Cristo em alma e carne e sangue. Em nome do Pai, do Filho, do Espírito e do Santo e do Amém. Enfim, a conversa fluía de certa forma, embora eu nunca estivesse satisfeito com o que dizia. Tudo o que saía de dentro de mim parecia merda, parecia porra. E eu me esforçava demais pra corrigir isso e me complicava cada vez mais. Aquele não era eu. Esse não sou eu. E talvez você seja a única pessoa que saiba quem eu sou, mas você não me diria isso que eu sei. Não faz isso com ele, tadinho. E aquele dó que todo mundo tem no olhar quando me vê.
De qualquer forma, aquela inutilidade toda posta em prática me fez vê-la de outro jeito. Era como se ela tivesse me compreendido, ou ao menos tentado, ou ao menos cogitado. E na mesma velocidade em que eu tomei essa decisão ela se levantou e saiu de novo. Toc toc toc toc pela noite e essa é a primeira vez que eu descrevo uma mulher andando sem usar a palavra rabo ou boceta ou tetas. Era um carinho diferente. Carinho de bonzinho, de babaquinha, de idiotinha. Eu vulnerável demais pro meu gosto. Eu sendo eu mesmo pela primeira vez em um bom tempo. Eu vivendo a vida. A vida de filho da puta.
Tudo aconteceu quando eu fui procurá-la. Caçando uma pessoa só no meio daquela multidão de caras iguais e corpos que se mexem bem demais, porém demais. Bebendo e numa masturbação mental sobre o que dizer, como se comportar e todas as inseguranças que se abatem sobre o homem a cada dia que ele acorda. Os olhos bem abertos, as pernas fracas e os joelhos teimosos. E ela já nas mãos de outro cara em algum canto qualquer. O paraíso dela, o meu inferno. E o gosto doce da frustração na minha boca me deixando bêbado. Saí de lá, ganhei as ruas mais uma vez e cambaleei até em casa. Dormi. Sonhei com meu avô. Foi lindo. Lindo demais pra mim.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Anjos não existem.

E aí eu resolvi dirigir. Simplesmente tive o tal estalo. A tal luz divina. Epifania e o caralho a quatro. Desculpa de viciado em cogumelos que eu sei bem. Mas eu resolvi dirigir. Peguei meu Gol noventa e oito e sai por aí. Era um carro simpático. Nunca ganhei boceta nenhuma com ele, mas era simpático. Tinha cheiro de frango com boceta. Eu disse que não ganhei boceta nenhuma COM ele, mas ganhei algumas nele. Enfim, e lá tava eu nas ruas. De carro. Pelo incrível que pareça. Cruzei Rebouças, cruzei Faria Lima, cruzei Paulista. E porra nenhuma acontecia por ali. Umas mulheres desfilavam seus rabos entupidos de botox, uns engravatados corriam pra cá e pra lá. A gravata voando ao vento, sempre fingindo pressa. PRESSA, MUITA PRESSA. Pressa para voltar para o caralho do chefe e para a pica dura da mulher cansada de ser submissa. Promoção aos vinte e nove, demissão aos trinta e dois, suicídio aos trinta e três. Eu já escrevi sobre isso, vocês sabem.
Enfim, era tudo gente lixo. Paulista é tudo lixo. Carioca é tudo lixo. Você também é lixo, antes que eu me esqueça. E meu carro parecia cada vez mais inferior naquelas redondezas. Deus, como a riqueza é insuportável. Ela só funciona para quem a tem. O resto só sabe sonhar com ela, correr atrás dela. A riqueza é aquele sonho bom que nunca acontece. É aquela boceta cheirosa e impossível, como todas as outras. E aí eu fui baixando o nível e subindo minha vontade de respirar e me manter vivo. Usuários de crack, chupetas a dez reais, professoras de português, engraxates, alunos de teatro. O diabo em pessoa em cada sorriso já morto de cada esquina escura em plena tarde de segunda-feira. E eu escrevendo e sobrevivendo. Sobrevivendo, não vivendo, antes que eu me esqueça. A vida parece muito mais correta quando tudo ao seu redor é errado. Lindo de se ver. Eu abraço o demônio e Jesus Cristo ao mesmo tempo. Amigos de bar etc e tal.
Eu dirigia com calma, apreciando a paisagem. Realmente muito devagar. Buzinavam atrás de mim e o mundo estava fechado ao meu redor. FILHO DE UM CARALHO, gritavam. PIIIII PIPIPIIIIII PIIIPIPIIIIII, eu quero mais é que eles se fodam. Sou eu e meu carro, meu carro e eu e todo o lixo aqui presente. Encostei e uma puta veio desfilando. Elas, sempre elas.
- Oi, benzinho. Vamaê? - perguntou.
- Hoje, não, babe. Hoje não quero escrever sobre vocês. Você sabe, eu falo muito de putas e punhetas. Ninguém gosta tanto de putas e punhetas assim. - concluí.
- A punhetinha é dois real. Dois real a punhetinha.
- Querida, minha linda querida, procure um adolescente, ok? Aquele abraço.
Dei-lhe uma moeda e lá fui eu pelas ruas de novo.

Não fazia a mínima ideia de onde estava e meu senso de direção continuava tão ruim quanto minha literatura. Mas enquanto as paredes brancas não fossem realmente brancas eu estaria bem. Me dou bem com os sujos (os realmente sujos). Só sei que eu não via um pobre coitado há um tempo. Mas eu sempre me senti bem sozinho, então tanto faz. O rádio tocava o lixo do lixo dos anos oitenta, o que fazia os anos noventa parecerem uma dádiva. E eu nem preciso dizer o quão ruim foram os anos noventa. E eu dirigia e até aí tudo bem.
Foi aí que eu a vi. Eu tinha certeza que a havia visto. Pela graça de DEUS eu a vi. Cabelos loiros como o sorriso de uma criança inocente, pele branca como a do próprio Hitler, aquele judeu. Era um anjo, com toda a certeza. E a voz suave, mansa, me chamava para perto do seu seio, da sua graça. A única ideia correta naquele momento era ir de encontro a ela. Era abraça-la forte, na esperança de que aquilo tudo nunca se acabasse, a beleza nunca chegasse ao fim, e o amor nunca se transformasse em ódio. Algo impossível, no mundo de hoje, mas enfim. O fiz. E o monólogo mais estranho da minha vida começou. Você fala coisas inacreditáveis quando está com a pica dura.
- Eu te amo. Eu simplesmente te amo. Eu não consigo ficar mais um dia da minha vida sem você. Cada segundo longe da sua boca é o pior segundo da minha vida. ME LEVE PARA O CÉU PELO AMOR DE DEUS. Eu quero escorregar para dentro de você. Eu quero DORMIR dentro de você. Caralho, você é a porra de um anjo. Eu tenho certeza disso. Você foi moldada pela porra do Michelangelo. Não. NÃO! Pela porra de Deus, aquele divino. Me leva, simplesmente me leva. Abra suas asas e me leva com você. Quer casar comigo, anjo da minha vida?
- Cara... - meu anjo disse.
- SIM, MINHA VIDA.
- Você tá viajando.
Entrei no carro e fui pra casa. O pau mais duro que pedra.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Minha pica iluminada pelo luar.

Eu não me sentia um lixo há dias. O que era uma merda, uma vez que escrever estava se tornando cada vez mais difícil. E foi aí que eu descobri um dos meus pontos fracos era viver na miséria. Era na bosta que eu me sentia limpo e livre e completo e cidadão. Não há prosa em meio a alegria, não há narrativa em meio à euforia. Obviamente, esses são conceitos que só valem para a minha mente doentia, mas tudo bem. De qualquer forma, eu escutava músicas tristes antes de escrever. Vozes suaves, suicídios, música de macumba. Qualquer coisa que tornasse meu coração um lugar um pouco mais escuro faria efeito na hora de escrever, que, por sinal, começava tarde da madrugada, acabando poucos minutos depois. Eu escrevia da mesma forma que vivia: em pedaços.
Mas, enfim, a ausência de tristeza prejudicava minha escrita, assim como a ausência de VIDA. O problema de passar meses sem sair da porra do sofá é que você esquece que tem um mundo lá fora. Esquece que existem outras pessoas, que existem diferentes línguas e, inclusive, um povo de olhos puxados que fala errado e suja as ruas. E o racismo extremo ainda é uma das melhores formas de chamar a atenção. Pois bem, eu precisava ficar bêbado e buscar alguma coisa passível de se transformar em história que vai se transformar em e-mails filhos da putamente educados de algum editor que toma pico na veia. E a música triste rolando. Ó, como a melancolia é linda. Amores frustrados são a única forma verdadeira de amor.
Ignorei minhas reflexões acerca do amor e fui para as ruas. O sol queimava meus olhos. Eu sentia meus globos oculares em chamas. Respirar era pesado, doía. Cada tragada daquele ar de rua me tirava um pouco mais da vontade de viver. E a minha vontade de viver que nunca foi grande coisa. Resolvi encarar aquilo como o grande homem viril que sou. EU SOU VITO BEAUMONT E A PORRA DO SOL É SÓ UMA PORRA DE UMA ESTRELA QUE NÃO PODE BRILHAR MAIS DO QUE A MINHA PRÓPRIA PICA ILUMINADA PELO LUAR. Levei a cabeça o mais para trás possível, abri os olhos com todas as forças que minhas pálpebras eram capazes de suportar e fiquei ali. Sentindo a luz. Aquela forma de luz pura, branca, pálida. Invadindo minhas retinas como se aquela fosse a minha primeira vez. Doía. Ardia como um filho da puta. Mas eu encarei. Segui caminhando, com um infinito de pontos brancos a minha frente. E o mundo, subitamente, não parecia de todo mal.
Passaram por mim uns seres estranhos. Em bando, obviamente. Falavam alto, com a boca pintada. Óculos escuros cobriam parte do rosto quase sempre. Não tinham graça alguma. Eram seres iguais. Um oceano de pernas que se movem ao mesmo tempo, cabelos penteados para o mesmo lado e outros fatores que não refletem personalidade alguma. Eu não via seres como aqueles há um bom tempo, mas sei que eles carregavam algo que me deixavam ouriçado. De rola dura, para ser sincero. Lembravam mulheres, mas talvez não fossem. Ou talvez fosse eu que não sabia distinguir mais nada além de dor e alegria. E eu soando cada vez mais clichê escrevendo tudo isso em uma madrugada quente, perdendo identidade, falando difícil. Agindo como ELES.
Mas, enfim, muita coisa aconteceu nesse meio tempo. Uma puta de uma desconstrução do caralho. A começar pelo meu pau. Ele ardia como nunca. Sifilítico sem ter comido nenhuma boceta. Não me recordo exatamente a quantidade de punhetas que bati nesses meses, ou anos, ou espaço de tempo. E talvez seja hora de parar de escrever sobre punhetas e voltar a escrever sobre bocetas. Tudo o que eu preciso é de uma. Mas eu ainda estava na rua e não se arranja bocetas na rua a não ser que você pague. E eu não tinha dinheiro algum. Eu estou desempregado, vocês sabem. Ando comendo peixes que ganho em feiras de animais. Eles vão morrer mesmo, nascem predestinados a isso. Naqueles sacos plásticos com um pouco de água. Fritam maravilhosamente bem na frigideira. E rendem algumas boas refeições. Chupo-os até a espinha, no mesmo ritmo em que Mirisola fode-os no cu. Incrível.
E eu andava pelas ruas sem dinheiro. Não conseguia mais pagar para ficar bêbado então eu juntava uns trocados e comprava álcool nos postos de gasolina. E era só um gole me distanciando entre as maravilhas de se estar bêbado e o inferno de se estar doente. Eu procurava ficar no meio-termo, mas caía para o inferno, nunca para o paraíso. A vida segue, after all. Andava mais um pouco e mais um pouco. Sentindo o calor. A vontade. A falta. E tinha uma mulher incrível parada por ali. Tão inocente quanto um anjo incapaz de voar. Parei para ver se ainda sabia como me comunicar.
- Uga buga, sua puta. – disse eu.
- Cara, você é louco. – falou ela.
- Ao menos rimou, não é?
E foi nessa hora que eu consegui extrair um sorriso dela. Dentes brancos.
- Pois é.
- Eu moro aqui e nunca te vi. Me explica como isso aconteceu?
- Pois é. Sou nova. Comecei hoje.
- E você me chama de louco?
Silêncio.
- Eu acertei que você era uma puta. O que você tem a dizer sobre isso?
- Eu digo que é cinquenta reais a hora.
- CINQUENTA?!?!
- Dez a chupeta.
- DEZ!?!!?!?!?!?!?
- O que foi? Tá barato, eu preciso ganhar a clientela.
- Concordo.
- Então?
- Pois é.
- E aí?
- Não tenho dinheiro nenhum, topa?
- Vai se foder.
- Não. Eu vou TE foder.
E foi assim que eu ganhei a puta e o meu dia.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Conselho.

A sociedade funciona mais ou menos assim: faça as pessoas gostarem de você. Foda-se como você o fará, mas faça. Arranjar uma boa boceta é bom, traz status. Mas, como provavelmente ela vai se cansar de você após alguns meses, não deposite suas esperanças na boceta. Aliás, não deposite nada, além do seu próprio caralho, em qualquer boceta. Elas são sugadoras de sonhos e esperança. Mas eu escrevo demais sobre bocetas, vocês sabem, então não considerem isso. Enfim. Ser gordo ajuda. Ser gordo ajuda porque assim fica mais fácil se auto depreciar. Se odiar. Querer a morte. E as pessoas gostam de pessoas que sabem "rir" de si mesmos. Ao falarem isso pra você saiba que ali mora um sádico. Naquele monte de merda depositada a sua frente, mora um filho da puta. Um carcereiro das coisas boas da vida. Por sinal, as coisas boas da vida são boas somente pra você. Aos olhos do mundo, O MUNDO CORRETO, O MUNDO PURO, as coisas boas da vida são as coisas erradas da vida. E isso, é Deus falando. E como Deus provavelmente sabe muito mais do que você sobre a vida, é melhor considerar. Deus será um cara legal enquanto você for um cara legal. Agora, experimente meter, cheirar, beber, fumar, dormir demais, não rezar todos os dias, usar seu dinheiro com coisas realmente úteis, falar demais, olhar para um rabo gostoso, espancar sua mulher etc. e sinta toda a fúria de Deus sobre o seu couro. Dilacerando o seu couro e deixando você com nada. Nada além da dor. E esse, meus amigos, é o meu conselho para vocês.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Poesia é chato pra caralho.

O dia já começou sem necessidade. O céu mais sem vida que a minha alma, o sol mais envergonhado que minhas ex-mulheres. Foderam com a vida dela no dia em que foderam comigo. Meu pau é um destruidor de bocetas. Um destruidor de sonhos. E eu me orgulho disso. O que me resta de orgulho é isso. A vida vazia e a maneira errada que eu tenho de lidar com ela. Quando sua vida é um branco sem fim, o negócio é aceitar e deixar o nada te engolir, começando pelo seu coração. Mas eu não. Eu, o grande Vito Beaumont, desempregado e virgem, não. Eu busco uma maneira de dar sentido à minha vida. Passo o dia bebendo, batendo punheta e me arrastando pelos cantos. Vomito também. Vomito bastante, tentando me convencer de que isso é melhor do que nada. O nada e toda sua relatividade do caralho. Eu escrevo sobre o nada, me alimento do nada e escuto o nada conversando comigo todas as noites. É quase um monólogo. Ele fala sozinho e eu escuto e obedeço e penso Caralho, isso é genial.
E eu sou um filho da puta. Leio bastante E. E Cummings, também. É, isso mesmo. E. E. Cummings. É uma bosta, mas eu sigo lendo. Página após página, decepção após decepção. Poesia é a música dos fracassados. Dos que se autointitulam bons demais para escrever algo que não busque um sentido só na cabeça do próprio autor. Vocês sabem, todo poeta escreve com o único propósito de comer bocetas tolas e, supostamente, sensíveis. Expressar a dor e os sentimentos é a puta que pariu. É a boceta da santíssima mãe deles. Vocês sabem, poetas sempre têm aquela conversa de que a poesia é que os mantém vivos. De que se não fosse as palavras e todo o poder terapêutico e inútil delas eles não estariam mais aqui, nessa porra dessa Terra de merda. O grande caralho. Quem faz isso por eles é a metanfetamina. Crystal meth, filho da puta. Cheirei uma carreira de cocaína e me lembrei da última vez em que topei com um poeta. Era um bar como todos os outros. Não era sujo como Bukowski gosta de descrever todo santo bar em que ele já esteve na vida. Era só um bar. Tinha bêbados, mendigos, casais, putas e gordas com pouca roupa. Um bar de cidade pequena. O hábitat natural daqueles que não são porra nenhuma. O paraíso dos que querem ser mas nunca serão. A boceta da santíssima mãe deles, eu já disse.
Eu estava lá, bebendo e não fazendo nada além disso. Eu já me encaminhava para o lixo que sou hoje. Eu estava lá, bebendo. E aí veio o poetinha. Pediu uma dose de martíni ou algo do tipo. Um daqueles drinks que vinha numa taça especial, com algum ingrediente secreto. Como se ele fosse melhor que todo mundo ali para beber em uma porra de um copo como todos os outros. Enfim, ele tomou aquele drink num gole só e olhou para mim com o canto dos olhos. Os olhos deles diziam Olha só como eu bebo. Eu pareço frágil por ser inteligente, mas por dentro sou um rio de dor que só se alivia bebendo dessa maneira autoafirmativa. Tudo isso naqueles olhos fundos e escuros. Eu realmente me incomodei, mas depois me senti aliviado. Antes ele falar com os olhos do que abrir a boca pra dizer algo. Ele pediu mais um ou dois drinks metidos, sempre repetindo o mesmo processo e dizendo as mesmas coisas. Eu bebia cerveja barata e lembrava da maneira nada romântica com que Hemingway deu fim na própria vida. Porra, espingarda na cara. É violento pra caralho. Realmente, o peso de ganhar (bem) a vida não fazendo nada além de escrever de pé deve ser insuportável. Todos têm a vida melhor que a minha. Eu gosto de imaginar o mundo assim para poder ter dó de mim mesmo à vontade. E foi aí que eu não gostei mais daquele lugar.
Eu vou beber o que ele beber, disse o poetinha. O garçom atendeu prontamente, sem imaginar o erro que estava cometendo. Ele deu um gole no copo igual ao meu e a de todos os outros e se esforçou ao máximo para não demonstrar repulsa. Uma lágrima escorreu e eu sorri. Segui com minha cerveja e meu Hemingway com suas dezessete virgens aguardando por ele no paraíso. O presente dos desertores. A vida e seu regime militar.
- Você é escritor, não é? - perguntou o poetinha.
- Não. Sou só infeliz mesmo.
- Um dos malditos, não é?
- Não. Sou só sem talento mesmo.
- Eu sabia. Escritores malditos deixam transparecer. Ó, doce ironia. Quanto mais tentam se esconder dos muros da sociedade e da verdade da humanidade, deixam transparecer a única e mais real das verdades. A escondida dentro de cada um.
- Tá beleza.
- De que lado você está? Um apaixonado como John Fante? Um rebelde como Charles Bukowski? Um lisérgico como Jack Kerouac?
- Eu?! EU?! EU ESTOU DO LADO DA VERDADE. EU SOU A VERDADE PERMANENTE E DEFINITIVA.
- Finalmente! Emoção de verdade! Isso é lindo! isso é o que você é! QUE COISA LINDA!
- VOCÊ DUVIDA DA MINHA VERDADE? VOCÊ DUVIDA DO QUE EU TE DIGO?
- MAIS! EU QUERO MAIS BELEZA!
- VOCÊ DUVIDA, HÃN?!

Virei meu pé em sua cara. Ele foi ao chão mais rápido que um negro sendo expulso de um ônibus há umas décadas atrás. Foi lindo. Ele chorava de emoção e seus olhos escuros oscilavam entre o encatamento e o pavor. Enfiei minha garrafa no meio de sua testa. Ela se abriu e a garrafa se partiu. Sentei em cima do seu peito e me dediquei única e exclusivamente a causar o máximo de danos possíveis naquele rostinho poético. A garrafa ia para cima, o sangue voava para baixo. A garrafa ia para baixo, o sangue voava para cima. E assim por diante. Soquei seu nariz até nao sentir mais nenhum osso inteiro por ali. Me levantei, cuspi em sua cara e mijei em seguida. Sangue, cuspe e mijo. Anteriormente, isso era um rosto. Deixei uns trocados no balcão, pedi outra cerveja e saí pela porta, aliviado por ter feito uma boa ação por aquele jovem aspirante a artista. Aquilo era poesia pura.

domingo, 27 de junho de 2010

Tudo o que eu não devia escrever.

Passei o dia fazendo absolutamente nada da vida. Passei o dia lutando para alargar o buraco no qual eu me enfiei há muito tempo e do qual eu não tinha a mínima intenção de sair. Bati aproximadamente quatro punhetas, cheirei cocaína e assisti a filmes de terror dos anos quarenta. E, por mais que tentem convencer você do contrário, eles são uma verdadeira bosta. Vocês sabem, quase não existem bocetas neles. E a única coisa que os velhos sabem fazer é mijar, cagar e rezar para que alguma divindade a vinte reais a hora consiga levantar aquela pica murcha sem que isso resulte em um infarto ou um AVC. Aí o telefone tocou. Do outro lado da linha, o mundo real.
- Vito?
- Não. Aqui não é o Vito.
- Quem tá falando, então?
- O que restou dele.
- Eu posso deixar um recado?
- Você que sabe. Eu duvido que ele receba.
- Avise a ele que ele está demitido, ok?
- Pode ser. Eu falei com quem?
- A porra do chefe dele.
- Eu sei. Senti o cheiro.

E agora eu não tinha mais emprego, mas não dava a mínima para isso. Embora eu fosse realmente bom no que eu fazia, eu me sentia melhor no meu lugar, no meu buraco. Ao menos até eu morrer de fome, ou algo do tipo. Era a desculpa perfeita para passar o resto do dia no sofá, tentando continuar assim. Eu convivia com a infelicidade e a miséria há tanto tempo que a única maneira de eu me sentir bem comigo mesmo é quando eu me sentia mal, da mesma forma que as coisas só pareciam certas quando estava tudo errado. Era a vida que Deus tinha para me oferecer, aquele grande brincalhão. Sorri ao relembrar da ligação, fiquei puto por isso e resolvi escrever minhas merdas.

Que tal falarmos hoje das mulheres? Sim, as mulheres, aquelas desgraçadas. Vocês sabem, elas já saem da maternidade premeditadas ao inferno. À filha da putisse. Mulheres, essas vagabundas. Elas são especialistas. Sabem como ninguém como entrar em você. Pois é. Você acha que é você que entra nelas, quando, na verdade, quem entra em quem são elas. Elas entram no seu coração, sugam tudo o que você tem de melhor e depois acham outra pica para sentar e ter orgasmos múltiplos. Aquelas vadias. Elas sugam o seu melhor, sugam a sua capacidade de ser um ser humano admirável. Tornam-se pessoas melhores, pessoas decentes, pessoas comíveis. E acham outra pica que as queira. Por mais que você a queira, elas não querem mais você. O seu melhor já está com elas, a missão delas já está cumprida. Elas agora querem algo diferente. Querem um caipira, um fazendeiro filho da puta dono de umas fazendas, um lixo da humanidade. Elas querem outra pica, outro coração infeliz, outra coisa que possa encher aquela porra daquela boca de porra. Porra. Caralho. Filhas de uma puta. Vocês sabem, as mulheres são uma necessidade. Deus, aquele grande cheirador de cocaína nos criou com uma rôla com o único pretexto de se divertir às nossas custas. De enxergar-nos, do seu trono e das suas virgens divinas, enquanto nós choramos, nos humilhamos, perdemos nossa cabeça, nossa identidade, em nome da boceta, aquele buraco causador de desgraça e inferno. Coma uma boceta e veja sua vida se tornar um grande inferno. Coma uma boceta e acabe em um relacionamento de quatro anos que vai te levar a horas de psicanálise e meses de abstinência sexual. Vocês sabem, eu estou chorando. Chorando e lembrando da minha menina. Agora ela senta em outra pica. Um fazendeiro, ou algo do tipo. E eu bato punhetas com a mesma velocidade que ela tem orgasmos na pica do fazendeiro. Dadôra de bunda. Vocês sabem, eu esmurro minha porta e chuto meu armário. Não resta mais nada no meu quarto, não resta mais nada no meu coração, não resta mais nada na minha alma. Vocês sabem, eu entendo perfeitamente as causas de crimes passionais. O coração sempre fala muito mais alto que o bom senso. O coração, essa grande bomba de bosta que irriga seu corpo com ódio, amor, ódio, amor, ódio, amor. Eu estou apaixonado, ela não. Eu sinto falta do seu toque, dos seus cabelos ruivos, das suas frustrações, das suas fraquezas. Sinto falta de fazê-la uma pessoa melhor, mesmo que seja para que ela cavalgue outro caralho. Balançando aquelas tetas deliciosas e pedindo desesperadamente para que o fazendeiro as chupe. Ela me pede favores e eu atendo prontamente. E esses favores resultam em sentadas e chupadas e orgasmos no cara. Eu preparando-a para outro. Ela está gostosa, não é? Imagino. Foi eu quem fez. E eu bato punheta e choro e saio todas as noites para beber num bar que fica a cinco quilômetros de casa. Vocês sabem, quem escreve aqui sou eu mesmo. Victor. Ou Vito. Vocês sabem. Eu não sei. Vocês sabem. A vida de filho da puta. E isso é tudo. Tudo o que eu não devia escrever.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

A vida de filho da puta.

Começou como um erro. É assim que Bukowski começa o seu primeiro romance. Cartas na Rua, e é mais genial do que qualquer coisa que eu posso escrever na minha vida. Meu livro tinha umas vinte e sete páginas há vinte e sete dias. Ou meses. E tudo era uma merda. O pior dos piores não limparia o cu com aquelas páginas. E eu aqui cogitando a possibilidade de inserir a palavra merda no meio do título. Merda.
Começou como um erro. Esse aqui sou eu, deitado no meu sofá há dois dias. Esse aqui sou eu, fedendo a vômito. E essa aqui é a minha sala, também fedendo a vômito. Passei mal depois de anos, passei mal depois de umas simples cervejas. Fraco. Foi ontem, ou antes de ontem. Eu não sei mais diferenciar o dia da noite uma vez que a minha vida não passa de trevas. O inferno do filho da puta. Mefistófeles me chamando para sentar na pica dele.
- Vem, Vito, vem.
- Nem rola, Mefistófeles.
- Porra, você sabe que você quer.
- Ainda não, Mefistófeles, eu preciso disso aqui um pouco mais.
E eu ficando mais um tempo por aqui, na mesma.

Começou como um erro, vocês sabem. Eu não sei o que se passava na minha cabeça naquele dia. Aquele dia em que eu acreditei que realmente pudesse viver sem ela. Aquele dia em que eu acreditei que realmente tinha uma vida própria. Algo além de mim, meu umbigo e toda a sujeira que eu varro pra debaixo do tapete. Eu só sei que fiz o que fiz. Tem alguns anos atrás. E, coincidência ou não, foi a partir dali que as coisas começaram a dar errado pra mim. E Mefistófeles começou a me chamar para a pica dele. CALMA AÍ, MEFISTÓFELES, PORRA.
Coincidência é o caralho. Coincidência é aquilo que as pessoas usam para justificar aquele trombão no meio da rua, numa terça-feira de chuva, que acabou em casamento. É só isso. A desculpa dos fracos e dos descrentes. É o que sustenta os ateus e todos aqueles caras que se acham mais inteligentes e mais interessantes por não acreditarem na existência de um cara de turbante barbado que dá ordens com aquele grande dedo branco fodedor de virgens. Deus é um cara gente fina, vocês sabem. Jesus é vacilão. Deus é gente fina. Tal pai, tal filho é a boceta da Madre Teresa.
Eu só sei que tinha anos que eu não vivia. Que eu não brilhava. Eu me alimentando da escuridão e dos que se acham suficientemente corajosos para encará-la. Essa grande brincadeira chamada vida. Eu continuava deitado no sofá, na mesma posição há uns dois ou três dias, coçando meus bagos e passando mal pela sétima vez. O vômito já seco no canto do meu apartamento e o cheiro que nunca passa. E eu ainda tinha um emprego. E amigos. E eu continuava me enganando. As lágrimas começaram a escorrer. Eram dias daquela mesma situação. As lágrimas sempre vinham sem ser convidadas. E ficavam. As malditas ficavam.
Eu chorava e socava tudo o que pudesse se partir e me causar dor. A punição dos fortes. A porta do armário em frangalhos, da mesma forma que meu coração e meus mais de vinte ossos em cada mão. E esse aqui sou eu, chutando a privada. E esse aqui sou eu, mostrando uma foto de mim mesmo chutando a privada para meus filhos.
- Porra, pai, que grande babaca você foi.
- Não fala assim, Vitinho. Eu não fui. Eu sou.
- Cadê a mamãe, papai?
- Não sei.
- Como assim, papai? Sinto falta da mamãe.
- Eu disse que eu sou um babaca, não disse?

Vai ver era só isso que eu queria. Uma mãe para meus filhos. A mulher da minha vida de volta. A única coisa que me fazia ser alguém feliz por alguns minutos, antes que eu me tornasse um estúpido movido pela minha pica e por minha falta de tato para lidar com o amor. O amor incondicional. Aquela coisinha que corta sua visão e enche seu coração de vida. Aquela coisinha que deixa a vida melhor, e pior, e melhor, e pior. Aquela coisinha que me fez levantar depois de dois dias de sofá, vômito e lágrimas. Fui até o meu quarto, peguei um lápis, voltei para a sala e para minha parede. E eu precisando desesperadamente da minha ex-mulher. O nome dela é Lia e eu acho que vinha alguma coisa antes. Tipo Mary, Maria, ou Beatriz. Algo assim. E, pensando bem, vai ver que é por isso que hoje eu estou sozinho, precisando dela da mesma forma que um cachorro precisa desabotoar aquela ponta vermelha no meio das quatro patas.

O amor. Essa porra chamada amor. Quem aqui sabe o que é amor, porra? ALGUÉM AQUI AMA? Onde está seu Deus agora? Amamos de tudo um pouco. Protetor solar, bocetas, paredes, livros. Amamos até a nós mesmos, de vez em quando (como alguém tem a capacidade de se amar, sem estar batendo uma bela punheta?). Se eu alimentasse a mesma habilidade para amar que eu tenho para bater punhetas eu estava feito. Eu juro por tudo o que há de mais sagrado: eu tento amar. Eu me esforço. Meu coração se contorce, implorando por um pouco disso. Por um pouco de calor. Nada que venha de uma vagina, por mais quente e agradável que ela seja. Um pouco de calor que vem lá do fundo do coração. Que rasga as artérias e ventrículos no meio. Que sobe pela porra do seu estômago e faz você vomitar de paixão. E a gente olha pro chão e pensa na vida, e pensa na morte, e pensa em amar. A gente num diálogo insistente e entorpecente com nós mesmos, nos convencendo de que as coisas são assim. De que precisamos abrir mão de algo para vivermos em comunidade. Para vivermos com uma porra de uma mulher. A mulher, vocês sabem. As fêmeas, que têm aquele negócio chamado BOCETÃO. E essa é a quinta ou sexta vez que a palavra boceta aparece por aqui. E isso significa que eu não vou navegar em uma boceta pelos próximos meses. Um velho barbudo do caralho fino disse uma vez que navegar era preciso. E eu não faço a mínima ideia do que ele quis dizer com isso. O que eu sei, meus caros amigos, lambedores de piroca e adoradores de paredes, É QUE EU PRECISO DE UM BOCETÃO NA MINHA CARA. Vocês sabem, aqueles lábios grandes e duros, com o meu nariz no meio deles, dividindo-os e abrindo caminho para um outro mundo. Um lugar onde só existe o gozo, o êxtase. Cocaína é como boceta, vocês sabem. A diferença é que, se você exagera em uma, o seu nariz sangra, na outra é o seu coração.

Eu estava ficando bom nisso. Nessa história de escrever com o coração, com o sentimento, com a dor. De deixar meu instinto ser o meu guia e mover minha mão para cima e para baixo, formando letras e poesia e beleza literária. E eu não via a hora de ser convidado para algum evento cheio de bocetinhas metidas a intelectuais, de sentar numa mesa, segurar um microfone, ouvir perguntas como Você teve a ideia de colocar a palavra, abre aspas, merda, fecha aspas, no título do seu livro para ir contra as imposições do governo acerca da liberdade de expressão dos novos grandes artistas brasileiros? E Bukowski? O que ele significa para você e como os, abre aspas, malditos, fecha aspas, influenciam o seu processo de criação literária? e responder com algo como Eu bato cinco punhetas por dia. Ah, a vida boa. A vida de filho da puta. E agora eu precisava de um processo de criação literária. E agora eu precisava cheirar cocaína. Desci as escadas e fui viver.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

A (falta de) carinho na minha vida.

Eu e a madrugada, a madrugada e eu. O céu totalmente preto e minha vida iluminada por uma porra de uma Philips quarenta watts. O meu cu doendo pelos motivos certos. Eu cagava com certa e dolorida frequência já há dias. Eu precisando de uma mulher desesperadamente. Não necessariamente de uma boceta, de uma mulher. Eu sempre me enganando, dizendo não para a realidade, Eu não preciso de vocês, eu sou um cara do caralho, dizendo. E a realidade cuspindo na minha cara um muco com cheiro de lubrificação vaginal. O resumo da minha vida, meus amigos. O resumo da minha existência.
Minha ex-mulher continuava sendo minha ex-mulher. Eu lia Mirisola e Fante. Mirisola lambia azulejos e frequentava o quartinho da empregada, Fante alucinadamente apaixonado com a pica dentro da cueca. O filho morrendo e Bandini esperando a primavera. E nenhuma das ideias me era interessante. O trabalho a mesma merda de sempre. A vida de filho da puta. Eu marcava encontros atrás de encontros, discava no telefone com a mesma velocidade da minha primeira gozada. Coisa de segundos. E nenhuma das mulheres me era interessante. Eu tentando me manter forte. Eu me dando o direito de selecionar.
Os encontros duravam a mesma coisa que a minha habilidade na hora de discar ou a minha inabilidade para bater punhetas.
- Alô?
- Quem fala?
- É o Vito.
- Que Vito?
- Quer sair?
- Não.
E o silêncio. E isso era um encontro.

Eu me acostumava com o fracasso, me tornava ainda mais íntimo dele. Eu mandava ele se foder, lamber o cu da mãe e coisas desse calibre, mas ele insistia em manter contato. Insistente, esse tal fracasso. Eu pulava de bar em bar, sempre repetindo o processo. Buscar distância da multidão, beber o suficiente para sorrir, ficar imóvel, esperar as fêmeas se aproximarem. O processo sempre fluía até a quarta etapa. Ali empacava e ali ficava. Até o amanhecer, a dor e as lágrimas chegarem. O sofrimento como companhia. Eu chegando no bar e saudando o garçom. A estranha intimidade de novo.
Eu e a madrugada, a madrugada e eu. Passava das três da manhã e o processo ia fluindo naturalmente. Perdi um tempo a mais na segunda etapa, mas tudo estava indo de acordo com o planejado por Deus ou qualquer outro cara barbudo de turbante que criou as leis do homem e da humanidade e das outras pessoas que acompanham esses dois. O tal homem e a tal humanidade, inimigos até os ossos e o seu cálcio que revigora qualquer um.
A dor já havia chegado, o banheiro já havia sido utilizado. Só faltava as lágrimas chegarem para a festa. A FESTA DA LAMÚRIA. Beije-me, dor. Eu te quero, eu te desejo muito, eu dizia comigo mesmo, me divertindo com minha infelicidade. Um paradoxo e tanto, diria o meu professor de filosofia, que considerava tudo uma porra de um paradoxo.
- Professor, eu tô com um problema, sabe? – eu disse, certa vez.
- Diga, Vito. Abra-se. – ele era viado.
- Eu quero mais boquetes, mas minha namorada insiste em me beijar depois dos boquetes. EU NÃO QUERO GOSTO DE PICA NA MINHA CARA, EU QUERO BOQUETES. E agora?
- Um paradoxo e tanto, diria o meu professor de filosofia. – ele respondia.
Eu sempre aguardava uma conclusão, mas ela nunca veio. E ele saía, procurando algum calouro para chupar e um veterano para colocar o dedo no rabo dele. E eu até hoje não sei o que significa paradoxo, embora vivesse um nesse momento.

Eu pensava na vida e sentia a porra do Nilo se agitando atrás dos meus olhos. A crueldade da realidade sempre surtia esse efeito em mim. Ao menos desde que decidi me afundar na própria merda. A garganta cheia de bosta. E logo estaria tudo pronto e eu liberado para a minha casa e a minha parede mais bela de todas. Fante tinha um braço, eu tenho uma parede. E uma pica, obviamente. Uma bela pica. Pedi uma garrafa do pior vinho da casa para viagem, já prevendo o meu futuro e o futuro dessa madrugada do dia que eu não sei qual é. E ela parando do meu lado.
Cabelos castanhos, olhos finos e o sorriso mais divertido da minha vida tragicômica. A beleza do resto acompanhando a beleza do sorriso. Convide-me para a sua casa ou saia de perto de mim, eu disse. Ela puxou minha mão e me guiou até seu lugar, que ficava há umas três ou quatro ou cinco quadras dali. Nenhuma palavra no caminho. A mulher perfeita. A boceta a ser fodida, embora eu sentisse falta só de uma mulher mesmo.
Eu gosto de noites sem destino certo. A incerteza sempre foi minha grande paixão. Entramos em sua casa e tudo parecia de brinquedo. O sofá, a televisão, a geladeira. Tudo parecia de plástico, tudo parecia inflamável. E a minha cueca já apertada. Eu não sabia brincar e tinha minhas próprias necessidades. Desculpe, benzinho. Ela foi até a cozinha e trouxe um pouco de cerveja num copinho de brincar de casinha. Eu agradeci, tomei num gole só e depois me dediquei a acariciar o seu rosto com todo o cuidado do mundo. Os dedos passeando pela pele suave, ela sorrindo e eu apaixonado.
Ficamos nessa por uns minutos. Os dedos, as bochechas, os toques. Tudo lindo. O meu coração aquecido, a sensação da vida lutando para manter sua natureza. Eu me tornava cada vez melhor em descrever sensações e cada vez pior em descrever aparências. Sinal de que as coisas não iam bem para mim. Eu me tornando um ser humano melhor e bondoso e vendo aquela porra que realmente importa guardada dentro das pessoas, junto com os órgãos, os fluídos e toda aquela merda. Eu indo pro céu, beijando a cara de Cristo. Eu um cidadão do bem. Eu pagando meus impostos e indo buscar uma criança gordinha e fofinha na escola, meu filho. Eu me suicidando aos trinta e três.
Ela fechou os olhos e se entregou encarecidamente aos meus cuidados miseráveis. Tudo lindo. E eu ainda não sabia o nome da minha princesa, mas a apelidei de princesa.
- Princesa, eu te amo, princesa.
O silêncio e os olhos fechados.
- Princesa, eu não preciso de mais nada quando estou com você, princesa.
O silêncio e o corpo quente.
- Princesa, eu quero fazer amorzinho gostosinho com você, princesa.
O silêncio e o suicídio aos trinta e três.
- Princesa, tira essa porra dessa roupa, princesa.

A campainha tocou, ela abriu aqueles olhos miúdos e, num pulo, deixou meu colo e todo o meu amor inconveniente e incondicional. O corpo quente tremendo de alegria. E eu lá sentado esperando e pensando Essa agora?. A cabeça jogada pra trás e a mão na testa, refletindo sobre o quão ruim minha noite terminaria, ou começaria. As coisas andavam estranhas, confesso, e eu já não sabia mais o que esperar das surpresas. Das surpresas da vida. Aquelas coisinhas que fazem você achar que ainda vale a pena levantar de dia e deitar de noite. Aquelas coisinhas que fazem a sua barriga gelar como se você estivesse apaixonado. Porra nenhuma.
A porta abriu e um cara entrou. O cabelo caído nos olhos, o andar arrastado. Camisa de flanela, bermuda anos noventa do Palmeiras, chinelo de dedo. A voz doce, de criança ainda. Os braços finos, sem pelos, de criança ainda. Não cumprimentou, só passou, devagarzinho, pra cozinha. Abriu uma caixa de suco de laranja de criança ainda e tomou no gargalo. Ela olhou pra mim, mostrou aqueles dentes simpáticos e foi pro outro sofá. Ele foi e sentou-se do lado. A mão nos cabelos castanhos, a boca cada vez mais próxima, as pernas se relando em sinal de carinho e aceitação. Ela na dele. Ele na dela. Aquelas coisinhas que fazem a sua barriga gelar como se você estivesse apaixonado. Porra nenhuma.
Levantei, mijei na planta e saí. O silêncio e a juventude.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

A (falta de) boceta na minha vida.

Era domingo e eu não tinha porra nenhuma para fazer. Eu admirava a minha parede e a poesia era a coisa mais bela na minha vida, naquele momento. Me lembrei de quando vi a morte agindo, naquela tarde estranha há sei lá quanto tempo. O tempo passa rápido quando você está na mesma merda. Jack ainda não falava direito comigo, e eu não era idolatrado há uns bons meses. E a única coisa que me mantinha distante disso tudo era a preguiça. Eu abraçava a letargia, mordia-a bem no meio da espinha, colocando toda a força do mundo nos meus maxilares. Mas eu era isso mesmo. Eu era essa massa imóvel e ignóbil, e nem fodendo que eu iria mudar agora, há essa altura do campeonato, não tão longe da morte assim. Que ela venha, eu não tenho medo de caralho encapuzado nenhum.
Mas eu me sentia só. No fundo, no lugar onde guardo os sentimentos mais imbecis, como compaixão, eu me sentia só. A solidão apertava meu peito ao mesmo tempo em que eu apertava minhas bolas, desejando uma boceta nova. Minha ex-mulher não lembrava de mim há um bom tempo e eu não tinha confiança para, simplesmente, buscar alguma boceta em algum lugar. Conseguir mulher é uma coisa, boceta é outra coisa. Abri uma garrafa de vodka e liguei no canal pornô. Um negro imenso enfiava tudo o que tinha em uma japonesinha. Peitos miúdos, olhinhos apertados, uma rôla gigantesca e lágrimas. E eu só conseguia pensar na mãe daqueles olhinhos apertados.
Desliguei e me senti enjoado. Meu estômago se revirava em sinal de repulsa. A mãe daqueles olhos, agora cobertos de porra, não saía do meu alcance. E respirar doía e eu preferia estar morto a estar excitado. Corri para o banheiro e bati uma punheta com a porta aberta. Ao fim, soquei meu estômago quatro vezes, com toda a força que minhas mãos conseguiram conter. O impacto me fez vomitar, mas nada saía. Água, um pouco de bolachas e sangue. Quando você não tem nada para vomitar, o seu corpo leva um pouco do seu sangue mesmo. É como se ele dissesse Você ainda tem bastante dessa merda, foda-se você, enquanto exalava aquilo que mantém você vivo. Eu estava, oficialmente, no fundo do poço.
Era domingo e eu não tinha porra nenhuma para fazer. Cogitei comprar um cachorro mas desisti assim que lembrei do meu primeiro animal de estimação. Era um coelho, e eu tinha sete anos. Lembrei do momento em que decidi abri-lo ao meio com uma faca, tirando o coraçãozinho, o pulmãozinho e todos aqueles outros órgãos tão pequenininhos. Lembrei que, logo em seguida, plantei-o nos fundos de casa. E reguei. E reguei. E reguei. Por três meses eu reguei o meu coelhinho todos os dias. Mas a minha árvore de coelhos nunca veio. E, hoje, isso me parece uma ideia um tanto quanto imbecil. Se ao menos eu tivesse tentado com um hamster.
Deitei, fechei os olhos e fiquei nessa. A vida indo.