segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Minha pica iluminada pelo luar.

Eu não me sentia um lixo há dias. O que era uma merda, uma vez que escrever estava se tornando cada vez mais difícil. E foi aí que eu descobri um dos meus pontos fracos era viver na miséria. Era na bosta que eu me sentia limpo e livre e completo e cidadão. Não há prosa em meio a alegria, não há narrativa em meio à euforia. Obviamente, esses são conceitos que só valem para a minha mente doentia, mas tudo bem. De qualquer forma, eu escutava músicas tristes antes de escrever. Vozes suaves, suicídios, música de macumba. Qualquer coisa que tornasse meu coração um lugar um pouco mais escuro faria efeito na hora de escrever, que, por sinal, começava tarde da madrugada, acabando poucos minutos depois. Eu escrevia da mesma forma que vivia: em pedaços.
Mas, enfim, a ausência de tristeza prejudicava minha escrita, assim como a ausência de VIDA. O problema de passar meses sem sair da porra do sofá é que você esquece que tem um mundo lá fora. Esquece que existem outras pessoas, que existem diferentes línguas e, inclusive, um povo de olhos puxados que fala errado e suja as ruas. E o racismo extremo ainda é uma das melhores formas de chamar a atenção. Pois bem, eu precisava ficar bêbado e buscar alguma coisa passível de se transformar em história que vai se transformar em e-mails filhos da putamente educados de algum editor que toma pico na veia. E a música triste rolando. Ó, como a melancolia é linda. Amores frustrados são a única forma verdadeira de amor.
Ignorei minhas reflexões acerca do amor e fui para as ruas. O sol queimava meus olhos. Eu sentia meus globos oculares em chamas. Respirar era pesado, doía. Cada tragada daquele ar de rua me tirava um pouco mais da vontade de viver. E a minha vontade de viver que nunca foi grande coisa. Resolvi encarar aquilo como o grande homem viril que sou. EU SOU VITO BEAUMONT E A PORRA DO SOL É SÓ UMA PORRA DE UMA ESTRELA QUE NÃO PODE BRILHAR MAIS DO QUE A MINHA PRÓPRIA PICA ILUMINADA PELO LUAR. Levei a cabeça o mais para trás possível, abri os olhos com todas as forças que minhas pálpebras eram capazes de suportar e fiquei ali. Sentindo a luz. Aquela forma de luz pura, branca, pálida. Invadindo minhas retinas como se aquela fosse a minha primeira vez. Doía. Ardia como um filho da puta. Mas eu encarei. Segui caminhando, com um infinito de pontos brancos a minha frente. E o mundo, subitamente, não parecia de todo mal.
Passaram por mim uns seres estranhos. Em bando, obviamente. Falavam alto, com a boca pintada. Óculos escuros cobriam parte do rosto quase sempre. Não tinham graça alguma. Eram seres iguais. Um oceano de pernas que se movem ao mesmo tempo, cabelos penteados para o mesmo lado e outros fatores que não refletem personalidade alguma. Eu não via seres como aqueles há um bom tempo, mas sei que eles carregavam algo que me deixavam ouriçado. De rola dura, para ser sincero. Lembravam mulheres, mas talvez não fossem. Ou talvez fosse eu que não sabia distinguir mais nada além de dor e alegria. E eu soando cada vez mais clichê escrevendo tudo isso em uma madrugada quente, perdendo identidade, falando difícil. Agindo como ELES.
Mas, enfim, muita coisa aconteceu nesse meio tempo. Uma puta de uma desconstrução do caralho. A começar pelo meu pau. Ele ardia como nunca. Sifilítico sem ter comido nenhuma boceta. Não me recordo exatamente a quantidade de punhetas que bati nesses meses, ou anos, ou espaço de tempo. E talvez seja hora de parar de escrever sobre punhetas e voltar a escrever sobre bocetas. Tudo o que eu preciso é de uma. Mas eu ainda estava na rua e não se arranja bocetas na rua a não ser que você pague. E eu não tinha dinheiro algum. Eu estou desempregado, vocês sabem. Ando comendo peixes que ganho em feiras de animais. Eles vão morrer mesmo, nascem predestinados a isso. Naqueles sacos plásticos com um pouco de água. Fritam maravilhosamente bem na frigideira. E rendem algumas boas refeições. Chupo-os até a espinha, no mesmo ritmo em que Mirisola fode-os no cu. Incrível.
E eu andava pelas ruas sem dinheiro. Não conseguia mais pagar para ficar bêbado então eu juntava uns trocados e comprava álcool nos postos de gasolina. E era só um gole me distanciando entre as maravilhas de se estar bêbado e o inferno de se estar doente. Eu procurava ficar no meio-termo, mas caía para o inferno, nunca para o paraíso. A vida segue, after all. Andava mais um pouco e mais um pouco. Sentindo o calor. A vontade. A falta. E tinha uma mulher incrível parada por ali. Tão inocente quanto um anjo incapaz de voar. Parei para ver se ainda sabia como me comunicar.
- Uga buga, sua puta. – disse eu.
- Cara, você é louco. – falou ela.
- Ao menos rimou, não é?
E foi nessa hora que eu consegui extrair um sorriso dela. Dentes brancos.
- Pois é.
- Eu moro aqui e nunca te vi. Me explica como isso aconteceu?
- Pois é. Sou nova. Comecei hoje.
- E você me chama de louco?
Silêncio.
- Eu acertei que você era uma puta. O que você tem a dizer sobre isso?
- Eu digo que é cinquenta reais a hora.
- CINQUENTA?!?!
- Dez a chupeta.
- DEZ!?!!?!?!?!?!?
- O que foi? Tá barato, eu preciso ganhar a clientela.
- Concordo.
- Então?
- Pois é.
- E aí?
- Não tenho dinheiro nenhum, topa?
- Vai se foder.
- Não. Eu vou TE foder.
E foi assim que eu ganhei a puta e o meu dia.

4 comentários:

meunonsense disse...

fazia tempo que não passava por aqu.
=)
Gosto bastante dos seus textos.


Beijos
tassi

Ahas. disse...

"Não há prosa em meio a alegria, não há narrativa em meio à euforia."

Concordo 100% com esta frase.

Seu texto tem um "q" de bukowski com Fante, gosto muito dessa pegada. Parabéns hermano!

Barbara C disse...

Comentei no post errado.
Esse foi o melhor dos contos teus.


bjo

Leon K. Nunes disse...

Dentes brancos, é iniciante mesmo... tá no preço. E as músicas tristes e cartas suicidas realmente vêm a calhar antes da escrita.