quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Merda.

- Diz pra mim, vai.
- A verdade? Ou o que você quer ouvir?
- O que lhe for conveniente.
- A vida é uma merda.
- Para.
- Foi o que você pediu. É conveniente que a vida seja uma merda pra mim.
- Isso não faz sentido.
- Lógico que faz. Aceitar que as coisas são uma merda torna tudo mais claro. Se não vai dar certo, do que me vale tentar? Prefiro ficar aqui, sentado na minha própria merda.
- Uma hora vai começar a feder. Aí você vai fazer alguma coisa. Não vai?
- Não exatamente. Tudo tem a sua consequência. Você mete e pode ficar doente. Você ama e pode ficar louco. A consequência da merda é ir tão fundo nela ao ponto de perder a capacidade de percebê-la. Ao ponto daquilo tudo se tornar sua realidade. E, meu amigo, nós já sabemos que a realidade é uma merda.
- E você já chegou lá?
- Não sei ainda.
- É só pensar. A vida ainda te surpreende?
- E isso é critério? Desde quando a vida reserva alguma surpresa? Nascer, amar, sofrer, amar, meter, sofrer, sofrer, trabalhar, criar, trabalhar, sofrer, trabalhar, sofrer, trabalhar, morrer. Essa é a vida. A sua e alguns bilhões de pessoas.
- Essa merda não é vida.
- Merda. Vida. É tudo a mesma coisa. Você só tem que saber lidar com elas.
- E o que você tem de tão especial para ser diferente dos outros?
- Nada. Aí que tá. A merda me engoliu. Para quem quer viver acima dela, eu não existo.
- Mas eu te amo.
- Adapte-se.
- Eu tenho outra escolha?
- Não.
- Vá à merda, seu merda.
- Eu também te amo.

Terminou seu monólogo, mudou de canal e se afundou no sofá.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Má influência.

- Eu vou fazer.
- Uhum. OK. Vai sim.
- Vai se foder.
- Na boa, admite.
- Vou admitir o quê? Se eu falei que consigo é porque eu consigo.
- Consegue merda nenhuma. Nem comer sua mulher você consegue.
- Mas isso é diferente.
- Diferente a puta que te pariu. Meter e trabalhar são, basicamente, a mesma coisa. A única diferença é que em um você fode e no outro você é fodido.
- Vai se foder.
- De novo? Você já foi mais criativo, meu caro.
- Vai tomar no cu.
- Uau. Que mudança. O que que é? Perdeu seu senso de humor junto com suas bolas?
- Qualé? Para de ofender minhas bolas, cara.
- Então vai logo, porra! Termina essa merda logo pra gente encher a cara.
- Eu não quero mais encher a cara. Meu médico falou que a bebida é a culpada pelos meus problemas.
- Assim fica fácil.
- Fica fácil o quê?
- Você não percebe? Ele usa isso como desculpa pra esconder a incompetência dele. Na verdade, todo mundo usa a bebida como desculpa pra tudo. Um tsunami varre a Ásia, culpa da bebida. Uns malucos jogam uns aviões nums prédios, culpa da bebida. Sua mulher dá pro instrutor de yoga , culpa da bebida.
- Minha mulher. Aquela piranha.
- Aquela piranha o caralho. Ela é uma mulher boa. Gostosa, tem umas tetas simpáticas. Uma boca boa pra boquete. Você que é fraco. Um frouxo de merda.
- Saindo daqui eu quero beber.
- Vai de quê?
- Uísque quase puro.
- Quase puro? Que porra de quase é essa? Você vive muito no quase, meu chapa.
- É uísque com um dedo de água.
- Tanto faz. O que importa é que ele desça bem, certo? O que importa é ele te levar pra longe desse lixo todo.
- Falou bem. De vez em quando você manda umas frases boas. De vez em quando eu gosto de você.
- Bora pro bar, meu amigo. Vamos celebrar a amizade. VAMOS CELEBRAR O AMOR.
- O AMOR É O COMBUSTÍVEL DO MEU PAU.
- E vice e versa.
- Eu te amo, cara.
- Bora pro bar.

Terminou seu monólogo, deixou o trabalho por fazer e foi pro bar.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Antenas e papéis higiênicos.

Enxugo o suor que escorre na testa e olho para o relógio. Vinte e uma horas e vinte minutos, precisamente. Mais quarenta e eu estou fora daqui. Sinto uma vontade imensa de ficar deprimido. Olho ao meu redor e arranjo um motivo. A luz é artificial, a parede é cinza e é tudo frio. À minha frente, carros passam. Um a um, num ritmo interminável. No fim do meu expediente são alguns milhares de novos carros que inundam as ruas, mesmo que elas não os suportem mais. E o meu supervisor ainda vem com papo de consciência ambiental. O caralho.
Olho para o relógio mais uma vez. Um minuto se passou. Agora só faltam trinta e nove. Mais perto do fim. Mais um carro. Com a mão direita, pego uma antena e a encaixo no teto do carro. Com a esquerda giro a antena no sentido anti-horário e termino o trabalho dando uma última fixada com as duas mãos. E é basicamente isso que eu faço o dia inteiro. Fico aqui. Punhetando antena. Bronhando teto de carro. São vinte e dois anos dessa merda. O que supostamente me faria o mestre da punheta. Mas, levando em consideração que uma punheta é a maior demonstração de amor próprio, acho que estou longe disso.
- E o verdão, hein? - perguntou Carlos, meu parceiro de antena a quinze anos.
- É foda. - retruquei seco.
- Não ganha porra nenhuma.
- E o seu time tá com tudo, né?
- Ronaldão, caralho!
- Ronaldão é o meu ovo.

E essas foram as únicas palavras que trocamos naquele dia. Depois de tanto tempo punhetando um ao lado do outro, não são necessárias muitas palavras. O silêncio fala muito mais. Olhei para o relógio mais uma vez e agora faltavam uns vinte e três minutos. Decidi ignorar o relógio e só esperar pela sirene. Isso sempre fazia o tempo ir mais rápido, mas eu não sabia como. Na verdade, eu não sei de quase nada. Faço poucas coisas e não as faço muito bem. Passou mais um carro e eu punhetei mais uma antena. As coisas seguiam devagar. Era sexta-feira e a semana tinha sido uma merda. Até que eu ouço um grito.
- Que PORRA é ESSA?! Quem foi o FILHO DA PUTA que fez esse CU?!

Pela voz fina eu sabia quem era. Jesus, o supervisor. Um homem baixinho do tipo invocado. Seus cabelos são finos e ralos, penteados com muito cuidado. Os óculos tem grossas armações negras, da mesma cor da sua gravata e sapatos, que parecem nunca sair daqueles pés número trinta e sete. Ironicamente, o cara era um grande filho da puta. E repetia.
- ESSA ANTENA! QUE PORRA É ESSA AQUI? CADÊ? CADÊ MEU PAU!? EU QUERO O MEU PAU! - esperneava enquanto apertava as bolas com toda a força que tinha.
Fui até lá. Com certeza tinha sido eu. O Carlos nunca errava.
- Que foi, Jesus?
- ME EXPLICA QUE MERDA É ESSA QUE VOCÊ FEZ.
- Uma antena.
- UMA ANTENA?
- É. Uma antena. Tá encaixada.
- OLHA MELHOR! OLHA MELHOR! MEU PAU?! CADÊ MEU PAU?!
- Jesus, pelo amor de Deus. Me diz qual o problema.
Ele deu uma respirada profunda e prosseguiu.
- Não é a antena certa, José. Essa é do outro modelo.
- É a certa sim, seu Jesus. A do outro modelo tem um detalhe em prata.
- E?
- E você tá vendo algum detalhe em prata aqui?
- É... Hum... Isso aqui... Não...
- Eu vou voltar pro meu lugar, seu Jesus.
- Não, José! Espera aí um pouco. Preciso falar com você.
- Diz.
- Você anda meio desmotivado. Eu imagino que depois de dez...
- Vinte e dois anos. - interrompi, corrigindo-o.
- Vinte e dois, que seja. Depois de vinte e dois anos punhetando antena, ganhando em um mês o que eu ganho em uma semana e não sendo valorizado por isso você pode acabar ficando meio cansado. Eu até imagino e, inclusive, tento compreender. Mas eu preciso de mais animação. São carros que você faz! CARROS PRECISAM DE ALEGRIA.
- Tudo bem. - respondi e dei o sorriso mais falso da minha vida.
- Então tá joia. Não se esqueça. ALEGRIA!
Dei as costas pra ele.
- E O VERDÃO, HEIN?! - berrou ele enquanto eu me distanciava e ignorava sua presença.

Parei ao lado de Carlos. Ele me olhou com aquele olhar. Eu retribui com aquele outro olhar. A sirene tocou. Alívio. Guardei as antenas Corri até o armário, tirei as botas, as luvas, os óculos, o capacete e despejei tudo lá dentro. Em questão de segundos eu tava fora do galpão. Em questão de minutos eu tava fora da fábrica. O céu estava preto e sem estrelas. Quando cheguei estava azul e cheio de nuvens. Lá dentro isso não faz diferença. Aqui fora sim. O problema é saber qual dessas é a minha realidade.
O ônibus esperava no mesmo lugar de sempre. Entrei primeiro e fui pro fundo. Abri um jornal de esportes. Cacete, o verdão tava mesmo uma merda. A única alegria da minha vida não me dá alegria tem tempo. Logo mais, logo menos, o ônibus vai estar infestado do que sobrou de dezenas de homens. Tem os que punhetam antenas, como eu. Tem os que pintam. Os que apertam. Os que entortam. Os que retorcem. Os que moldam. Os que soldam. E assim por diante. Dezenas de corpos e mentes vazios. Imprestáveis, com habilidades inúteis. Péssimos maridos e ótimos filhos. Fecho os olhos e desperto com Carlos me chamando. Nos saudamos e eu desço no ponto mais perto de casa.
Ando uns oitocentos metros, viro algumas esquinas, subo algumas ruas e estou de frente com o meu portão. Branco, simpático e pequeno, serve de fachada para um lar infeliz. Abro a porta, tiro os sapatos e vou pra cozinha. Abro a geladeira. Um arroz de semana passada, um pouco de feijão enlatado, umas cenouras cruas e um resto de coxão mole de anteontem. Desisto. Abro uma lata de cerveja preta e a viro em dois goles. Depois disso, tiro a roupa e vou pra cama.
Minha mulher aparenta estar dormindo há horas. Virada de costas pra mim, toda coberta, seu rabo continua atraente, mesmo trinta quilos mais gordo. Sinto uma movimentação estranha na minha samba canção. Ignoro seus cabelos terrivelmente presos, sua camisola dos anos trinta e sua lingerie bege com manchas de alvejante. Deito do seu lado. Começo a passar as mãos por aquele rabo gostoso e, furtivamente, escorrego a mão direita para dentro da sua calçinha.
- Tira a porra da sua mão daí, José.
- Mas, Maria...
- Mas a puta que te pariu, José. Vai dormir. Tô cansada.
- Mas sou eu quem trabalhou o dia inteiro.
Sem resposta.
- Maria?
- O QUÊ, SEU MERDA? O QUÊ?
- Que que eu faço, então?
- Vai bater uma punheta.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Ups and downs.

Daqui de dentro o mundo parece uma grande e dura merda. Mas pelo menos é uma merda que passa rápida, com um aspecto borrado. O que me faz lembrar o resultado dos meus fins de semana, pulando de bar em bar. Não tem ninguém do meu lado. Para o alívio do infeliz que viesse a se sentar ao meu lado. Abro um Bukowski puro sangue e esqueço do tempo que insiste em avançar no relógio e escurecer lá fora. Uma gostosa conversa com um policial no banco atrás de mim. E o cara não sabe domar a cavala. E ser jovem era uma merda.
O livro acaba. Adormeço. Acordo com o amarelo das luzes da rodoviária. Pego minha mochila e vou descendo. Atrás de mim, o policial permanece sentado. A gostosa vai na minha frente. Admiro seu incrível rabo, que se move num ritmo que faria o pau do Papa acordar. Ela olha para trás. Eu olho de volta. Sua expressão muda do desinteresse, para a repulsa. Foda-se aquela vadia.
Desco as escadas do ônibus e agradeço o motorista. Não enxergo nenhuma reação na cara mole dele, mas perdôo. Pior que viver nas ruas, é viver nas estradas. Atravesso o enorme salão. Perdido. Centenas de pessoas passam ao meu redor. Correndo, caminhando, chorando, sorrindo, abraçando, beijando. Aquela massa toda não passa de uma infinita contradição. Um casal de jovens se abraça calorosamente a uns dez metros de mim. Ele diz pra ela que não quer deixá-la. E eu só consigo pensar nas outras que ele vai comer, onde quer que esteja indo. Ninguém é fiel hoje em dia, e só as mulheres não percebem isso.
De repente, me lembro do que havia dito pra mim mesmo alguns minutos atrás. Antes de qualquer coisa, eu precisava ir ao banheiro. Logo na entrada do lugar tinha uma enorme placa com os valores. Uma mijada era um e vinto e cinco. UM E VINTE E CINCO POR UMA MIJADA. Fui até o caixa e fui ignorado completamente por uns trinta segundos. A mulher conversava sobre alguma imbecilidade com um homem tão imbecil quanto o assunto. Uma cavidade movia-se acima dos lábios secos e apagados da velha. Outro rombo reluzia em sua testa. Olhei para trás e um garotinho esperava ansioso, com as mãos no meio das pernas.
- Tá vendo aqueles buracos ali na cara da velha? - perguntei pro muleque apertado.
- Uhum.
- Se você fumar crack, vai ficar que nem ela.
- Crack? Que isso?
- Ah, pergunta pro seu pai. Ele deve saber.

O muleque baixou a cabeça e eu levantei a minha. Era boa a sensação de ter livrado uma pobre alma de um possível vício. E ter fodido com a cabeça de um adulto. E ser jovem era uma merda. Entreguei o dinheiro na mão da mulher e ela me entregou uma ficha. Atrás da ficha lia-se TELESP. A ficha foi pra mão do homem que não podia trabalhar porque estava falando com a mulher que ele não deixava trabalhar. E assim eu entrei no banheiro, sem encontrar meus olhos com os olhos dos dois. Quem dera fosse sempre assim. Minha vida seria melhor. E o mundo, talvez, um lugar menos pior.
Corri em direção ao mictório já com o zíper semi-aberto. O lugar ficava entre duas paredes de granito cinza e vagabunda. Até aí, tudo bem. Um lugar que serve pra mijar não precisa de luxo. O problema é que as paredes eram extremamente apertadas, o que, no fim das contas, tornou uma simples mijada um jogo de escolhas. Ou eu mijo com segurança e sofro com a incrível pressão que aquela parede fria proporcionava, ou eu me arrisco num mijo trêmulo à longa distância mas saio com minha integridade física intacta. Escolhi a opção número dois. Antes a minha integridade física sair ferida que a minha integridade moral.
Eu fazia força e a urina saía sem parar. Trinta segundos. Quarenta segundos. Cinquenta segundos. Mijando. Desisti de contar e ela se esgotou. Minhas bolas doíam porque a minha namorada não queria dar pra mim. E ser jovem era uma merda. Fechei o zíper e admirei a porcelana branca manchada de amarelo. O cheiro subiu forte. Tão forte que era quase possível sentir o gosto. Corri para a pia e lavei o rosto com vontade. Queria me livrar da sujeira. Queria me livrar de mim mesmo. Enxuguei o rosto, olhei no espelho e me senti novo por alguns instantes. Sai dali, antes que a sensação passasse.
Logo ao lado do banheiro tinha uma lanchonete. Uma lanchonete. Logo ao lado do banheiro. Eu sabia que isso não fazia sentido, mas ignorei o fato. Fui até o balcão e pedi o que tinha de mais fácil. Não passou trinta segundos e o lanche estava na minha mão. Instantâneo. Descartável. Como todo o resto da sociedade. Simpático, agradeci à caixa.
- Obrigado, babe.
- De nada, senhor.
- Sabe de uma coisa?
- Sim?
- Você ficaria ótima lá em casa, com esse rabinho na minha cara.
- Senhor, por que você não deita e morre, com o dedo no cu, senhor? Próximo!

Dei o meu melhor sorriso, agradeci e fui em direção à mesa. De lá, pude ver algo que me deu nojo. Sentado num banquinho, um tipo fortinho tocava um violão velho e tentava cantar uma música de uma cantora que pagou boquetes para subir na vida. Sem sucesso. Nem isso o cara conseguia. Mordi meu lanche fácil e sem sabor. A música acabou. Respirei aliviado. A música voltou. Meu estômago embrulhou mais uma vez. Em duas bocadas, terminei meu lanche e me levantei, deixando o papel sujo em cima da mesa. Caminhei até o tipo fortinho.
- Meu chapa, escuta, para com isso.
- Dá licença. Tô tentando trabalhar.
- É sério. Você não precia disso tudo, cara. Olha ao seu redor.
Ele olhou.
- Agora me diz: quantas pessoas estão realmente prestando atenção em você.
Ele calou.
- Pois é. Desce desse banco e vai pagar um boquete para alguém.
- Vai se foder.
- Porra. Só você não percebe. Os boquetes. São eles que movem o dinheiro. São eles que movem a porra do mundo. Os santos boquetes.
- Eu nunca tinha pensado assim, mas faz sentido.
- Eu sei que faz, tudo o que eu digo faz sentido.
- E você?
- Eu o quê?
- Quer um boquete?
- Vai se foder.

Deixei o tipo fortinho boqueteiro para trás e ganhei as ruas. Ah, como aquilo fez eu me sentir bem. Aquele bafo quente, fétido, direto na minha face. A realidade. A dura realidade. De repente eu havia me encontrado. Eu era um ex-esquizofrênico me conhecendo aos poucos. Eu era alguém. Um zé ninguém. Parei um táxi e fui de encontro ao meu destino.
A próxima coisa da qual me lembro sou eu, num banco de ônibus, voltando para casa. Uma morena de lindas tranças, pescoço suave e peitos maravilhosamente grandes está sentada ao meu lado, lendo alguma coisa. Crime e Castigo, Dostoiévski. E ser jovem não era nais uma merda.
- Bom gosto você tem, babe.
- Vai tomar no seu cu.

E ser jovem era uma merda.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Final inesperado.

Ela abriu a porta do escritório e lá estava ele, para variar. O roupão azul, o cabelo cheio de nó, o óculos de farmácia e aquela caneta com a tampa mastigada, ainda na boca. Sentado no escuro, brincava de sombras com a pouca luz que saia da luminária. Ele disse em alguma conversa cotidiana de uma tarde sem graça de quarta-feira que aquilo dava uma agitada nas suas ideias. E ainda brincou, falando que dava uma luz para ele.
O momento ficou marcado para ela. Ele não é de brincar. Ela é. Brincou, inclusive, quando escolheu a camisola que vestia naquele momento. Definitivamente, eu não vou ganhar um lugar no céu com isso aqui, disse rindo consigo mesma.
- Vem pra cama, bem, vem. - convidou, cheia de segundas intenções.
- Agora não. - respondeu, sem desviar o olhar da folha em branco.
- Meu bem, você não tá entendendo. Eu preciso de você.
- Não. É você que não está entendendo. Eu preciso escrever.
- Que nada. Seus leitores não ligam de esperar mais um dia.
- Meus leitores, não. Meus editores, sim. Malditos engravatados.
- A gente tira o telefone do gancho. A gente fecha o registro da água. A gente desliga a TV. Só vem pra cama, por favor.
- Eles estão em todos os lugares. São onipotentes, onipresentes e oniscientes.
- Então vamos para todos os lugares. Se não me engano, a cozinha ainda é virgem.
- Você não lembra o que aconteceu da última vez que atrasei?
- Disso eu lembro. A nossa caixa de correio ainda cheira a merda e a expressão daquele coelho enforcado na nossa janela ainda me traz um nó na garganta.
- Acho que não preciso falar mais nada.
- Eu só não me lembro de uma coisa.
- O que é, meu Deus?! O que é?!
- A última vez que senti minhas pernas tremerem.
- ME DEIXA TRABALHAR, CLARICE. VÊ SE PA...

Olhou para trás. E o incansável escritor resolveu ser, mesmo que só por uma noite, um incansável amante.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

A grande mãe. Capítulo VI: Conclusão.

- Você lê, Bohr?
- Só o catálogo de prostitutas, por quê?
- Eu sempre li bastante. Depois que minha santa mãe se foi, meu pai colocava um livro no meu colo, ordenava que eu o lesse até o fim e saia de casa. E ele nunca parava em casa.
- E eu pensei que a MINHA infância tinha sido uma merda.
- Mas a questão não é essa. O que eu quero dizer é que tudo isso que aconteceu do carro até aqui me lembrou muito um cara. Um escritor.
- Escritores são todos uns babacas.
- O cara chamava-se Chales Bukowski. Um americano fodido que virou o fodão depois de velho. Bebeu, fumou, apostou e meteu. Até morrer com seus setenta e algo.
- Olha só. De repente, ele não parece tão babaca assim.
- De fato ele não era. Na verdade, ele me lembrava muito você. A única diferença é que ele escolheu uma arte diferente da sua.
- Não me compare com um escritor, seu merda. Todo mundo curte beber, fumar, apostar e meter. E não é porque um americanozinho de merda fez disso o ganha-pão dele que eu tenho algo em comum com esses tipos.
- Acontece que, esse cara, meu chapa, tinha um talento que só você, na Família inteira, tem. A capacidade de apressar as coisas. Explodir. Dar um fim em tudo, de uma hora pra outra. Interromper tudo e mudar o curso das coisas. Pelo simples fato de ter considerado isso uma boa ideia.
- Não sou eu que dito o fim. É o sangue no chão.
- Se for assim, o fim dessa merda toda está próximo.

Olhei admirado para o rosto de Sergey. Estava diferente. Parecia um homem, realmente. Transpirava confiança, coragem, sabedoria. Comecei a pensar numa resposta, mas me perdi em um sentimento confuso. Respeito, talvez. Ele se levantou, olhou para mim, fez sinal de positivo com a cabeça e foi até a porta. Admirei o cenário ao meu redor. E, como o novo homem com o qual conversava a pouco disse, decidi dar um fim em tudo. Num pulo, me pus de pé, limpei a sujeira das minhas roupas, com uns tapas coloquei meu cabelo no lugar. Armas e colhões. Ambos nos lugares certos.
Me virei em direção a porta, tendo como destino a incerteza. Ouvi uma risada distante. O som das risadas foi se intensificando. E lá do fundo, vi dois homens caminhando. Me senti no corredor da morte. Imóvel, em minha cela, esperando pelos meus capatazes. Sergey vinha acompanhado do Pai, seu novo melhor amigo, aparentemente.
- Bohr! Eu estava falando de você com meu amigo Sergey aqui!
Antes que eu pudesse reagir, Sergey sacou sua arma e enfiou quatro balas nos meus braços e mãos.
- Acho que você não vai precisar disso aqui, não é? – disse o Pai, tomando posse da minha arma.
- Já isso aqui pertence à Família. – disse novamente, tomando a Magnum dourada de Yuri.
- Você sabe o que eu acabo de fazer? Acabo de levá-lo de volta ao dia em que te encontrei. Com medo, desamparado, sozinho. Só mais uma criança.

O homem era bom no que fazia. Melhor que eu. Muito melhor que eu. Anos depois, corpos depois, vidas depois, eu estava de volta às minhas origens. E eu não gostava disso. Definitivamente, não gostava. Tentei me manter em pé, mas minhas pernas fraquejaram. Fui ao chão e lá fiquei, olhando para cima e tentando decifrar cada movimento dos dois.
Do chão vi Sergey deitar-se de bruços aos pés de Ludwig. Era um ritual. Eu fiz a mesma coisa aos dezesseis anos, quando entrei pra Família. Agora, para quem já faz parte dela, esse ritual significa um lugar garantido na mesa da Tríplice, um grupo seleto que pega as melhores faxinas e, consequentemente, as melhores remunerações. E lá, deitado com o peito para baixo, Sergey não teve a chance de ver Ludwig sacar a Manum de Yuri e enfiar três balas em sua nuca.
- Hahahahaha. Você é um verdadeiro covarde filho da puta, não é, Ludwig? E eu precisei matar o viado do seu filho pra poder descobrir isso. Veja como é a vida.
- Covardia foi o que vocês fizeram com o Tristan. O que eu estou fazendo é vingança.
- Vingança. Por que tudo tem que girar em torno da vingança, dessa pequena palavra de merda?
- Tá vendo porque eu estou aqui, de pé, e você aí, no chão? Você é só um garoto, Bohr. Substituível em qualquer função e em qualquer lugar. Agora, entenda de uma vez por todas. A guerra move o mundo, a vingança move as guerras. Faça as contas. Homens, mulheres, crianças, velhos, a humanidade. Tudo é movido pela vingança.
- Olha só que mundo maravilhoso nós vivemos. A vingança move a porra da humanidade, e eu aqui achando que ela só movesse mais grana para a conta bancária da Família. Pode confessar. Foi isso que te colocou onde está hoje.
- Isso o que?
- Isso que você faz! Pegar uma merdinha, algo insignificante, sem sentido algum e, com um discurso planejadinho e alguns gestos cansados, tornar em algo grandioso. Tornar a PORRA DO COMBUSTÍVEL DA HUMANIDADE.
- Homens pequenos enxergam as coisas como elas são. Homens grandes enxergam as coisas como eles são.
- Quem disse isso? Foi o tal de Bukowski? O americano fodão?
- Não, acabei de criar. É isso o que eu faço, não é? Eu só não sabia que você lia Bukowski.
- Eu não leio. O cara que você acabou de matar me falou dele uns minutos atrás.
- Por acaso você lê, Bohr? – perguntou Ludwig, enquanto ajustava a arma de Yuri.
- De novo essa pergunta?
- Simplesmente responda e depois cale a boca.
- Só Bukowski e o catálogo de prostitutas, por quê?
- Se você lesse, ia perceber que a maioria dos autores torna a morte algo romântico, extremamente elaborado e dramático. É como um tique nervoso literário que só não atinge uma privilegiada parcela desses babacas das palavras.
Comecei a prestar atenção e ele continuou.
- O que não faz sentido nenhum, você não concorda? Eles colocam a morte como o clímax, enrolando por páginas e páginas só para perder mais páginas descrevendo minuciosamente o ato de morrer. Quando na verdade ela não é porra nenhuma, além do fim. Colocam a morte como o estopim para o sofrimento em sua mais pura forma. A essência da decadência. Quando na verdade ela não é porra nenhuma, além de uma bala e um punhado de pólvora. Sabe o que eu acho? Que esses escritores apaixonados pela morte e seus personagens falecidos deveriam largar suas canetas e segurar uma dessas belezas aqui. Ver como ela torna toda essa ladainha de morte e sangue simples. Quase sem graça, se não fosse todo o processo até chegar a um momento como esse. Quando isso acontece, aí sim, teremos grandes obras.
Ludwig parou, ajustou a gravata e prosseguiu.
- O que eu vou te falar em seguida é um segredo sagrado. Você consegue guardá-lo?
- Acredito que não.
- Tudo bem, em breve não fará mais a diferença mesmo.
- Fala logo, caralho.
- Eu sempre quis ser escritor. Sério.
- Se você escrever tão bem quanto discursa, porra, eu compro tudo o que você escrever.
- Hahaha, assim você quase me faz pensar duas vezes, meu filho. Mas, não. Não faço o tipo babaca. Eu prefiro viver. Eu faço da minha vida uma grande obra. E, advinhe, esse é um momento daqueles que os escritores adoram.
- Isso daria uma história e tanto, Pai.
- Meus setenta e tantos anos até aqui, sim. Esse momento, não. Esse momento será como eu acho que ele deve ser. Sem romance, sem glamour, sem exageros.
- Sem graça.
- É. Sem graça.
Vi Ludwig pressionar o gatilho. Depois disso não lembro de mais nada.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

A grande mãe. Capítulo V: Reação.

Enquanto eu avançava em direção aos dentes de Boris, me deleitava com seu semblante aterrorizado. As pupilas estavam completamente dilatadas, dando aos seus olhos um ar espectral. Seu nariz aberto borbulhava sangue, revelando uma respiração desesperada. Aquele era o segundo nariz que eu havia partido ao meio em um único dia. Era um bom saldo. Há um centímetro de seus dentes, seus olhos se fecharam e eu parei. Queria me divertir mais.
- PUTA MERDA!
- Que sustinho, hein?!
- Bohr, PELO AMOR DE DEUS, ME DEIXA IR!
- Tá bom, eu te deixo ir. Deixa só eu cortar as cordas.
- Eu sabia que ainda restava bondade em você. EU SABIA.

Caminhei até a ponta inferior esquerda da mesa, peguei o machado já afiadíssimo, mirei bem a corda e, com toda a minha força, fiz o corte. Pouco abaixo do joelho esquerdo de Boris.
- Ops. Errei.
- AAAAAAAAAAAAAAAAH, DEUS DO CÉU! QUE DIABOS É ISSO?!?! PUTA! QUE! PARIU!
- Desculpe. Sério.
Não ouvi nenhuma resposta. Me aproximei de seu rosto ensaguentado.
- Bohr... Bohr... Por tudo que é mais... Bohr... Por quê? – escorria sangue de sua boca.
- Você não entende, não é? VOCÊ SIMPLESMENTE NÃO ENTENDE, SEU MERDA.
- Bohr...
- Eu não tenho absolutamente NADA a perder. Não sei quanto tempo vou durar. Um dia, um mês, um ano, um século. O futuro não pertence a mim, nem a ninguém. Deus é o caralho. Buda é a puta que pariu. Stalin que se foda. Eu só quero aproveitar o agora, o instante. Por isso, meu camarada, a pergunta que você deve se fazer não é ‘por que’, mas sim ‘rápido ou devagar’.
- Rápido... Por favor... Rápido.
- Resposta errada.

Boris começou a gritar desesperadamente. Tão, mas tão alto, que seus gritos chegaram ao ponto de incomodar. Eu. Incomodado. Com gritos de dor e desespero. Muito estranho. Fui até a porta dar uma espiada em Sergey. Sentado no chão, segurava os joelhos com toda a força, chacoalhando-se para frente e para trás. Cochichava algo, parecia uma oração ou uma canção de ninar. Meus lábios se contraíram espontaneamente. Era um sorriso. Realmente muito estranho.
Os gritos cessaram. Fechei a cara e voltei ao trabalho. Limpei o machado na camisa, caminhei até o lado direito da mesa e larguei-o sobre a perna direita. Corte perfeitamente simétrico com a perna esquerda. Eu estava ficando bom naquilo. Não houve reação sonora dessa vez. Mas, a expressão... Ah, a expressão! O horror, o horror!
- Ô, Boris! Como eu gostaria que você visse isso. Eu pareço a porra de um cirurgião! Cara, eu sou foda.
- Bohr... Vem...
Atendi seu pedido.
- Sabe o que é o mais engraçado ni-nisso? O Pai ia pa-passar a ca-cade-cadeira para você.
Puxou o fôlego, engasgou, cuspiu sangue e continuou.
- VOCÊ! VOCÊ, PAI! VOCÊ! VOCÊ! HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!

As risadas ecoavam incessantemente pelo galpão. Batiam nas paredes, tropeçavam nos membros apodrecidos, mergulhavam no sangue. Mas sempre encontravam o caminho de volta aos meus tímpanos. Doía. Me senti fraco e não tive vergonha de demonstrar. E, como todo homem fraco, eu agia sem pensar. Sem aproveitar. Sem compromisso.
A passos largos, fui até a mesa. Martelo na mão esquerda, machado na mão direita. Eu me movia como um insano. Como quem eu realmente sou. Reduzi suas duas pernas a um monte de pedaços desordenados e aleatórios. Grandes, pequenos. Triangulares, quadrados. Com o martelo, esmigalhei suas mãos e braços, até eles ganharem a consistência de gelatina. Ao fim, enlacei-os com o cuidado e o prazer que uma mãe ensina o filho a amarrar os cadarços.
Boris não falava absolutamente nada. Só tremia e tentava manter os olhos abertos. Estava catatônico. Queria estar morto. Implorava em silêncio pela morte. Olhei no fundo dos seus olhos confusos.
- Camarada, você não sabe o quanto é bom. Eu nasci pra isso. Eu simplesmente nasci pra isso. Eu vou desamarrar você aqui para você ver o que eu fiz. Olha, vou ser sincero com você. Acho que você é a minha obra prima.
Desamarrei sua cabeça e puxei seus cabelos, dando-lhe uma boa visão da tragédia que ele havia se tornado.
- Vê só. O nó perfeito nos seus braços. O mosaico que fiz com suas pernas. Por sinal, esse tal mosaico se parece bem com a nossa bandeira, né? Tudo vermelho, coisa e tal. Eu, se fosse você, estaria orgulhoso.
Boris não movia um músculo da boca.
- QUAL É, BORIS? NÃO VAI COMENTAR NADA? NÃO VAI ELOGIAR?! SE VOCÊ NÃO FALA, TEM BOCA PRA QUÊ?

Peguei o martelo e soquei bem no meio dos seus dentes. Em duas tacadas, seus dentes haviam desaparecido. Sua boca era um grande negro sem fim, como minhas memórias. O desmaio foi quase instantâneo. De repente, aquilo não tinha mais graça nenhuma. Olhei para minhas mãos sujas de sangue e me senti um covarde, um carnívoro filho da puta, uma madame consumidora de peles. Peguei a Magnum de Yuri no meu bolso traseiro e coloquei uma bala na cabeça de Boris. Aquele foi o meu pedido de desculpas. Envergonhado e cabisbaixo, fui até o lado de fora e me sentei ao lado de Sergey.
- Qual o seu segredo, Sergey?
Não houve resposta.
- Sergey? Responde, porra. Qual o seu segredo?
- QUE SEGREDO?! SEU DOENTE DO CARALHO! QUE SEGREDO?!
- Como você convive dia após dia com a vergonha? Como você consegue se olhar no espelho?
- E quem disse que eu convivo? – ele parecia disposto a ajudar.
- Eu falo sério. Qual é. Você deve ter algum segredo.
- Na verdade, sim.
- E?
Sergey levantou a camisa e mostrou sua barriga. Cortes a cobriam por inteiro.
- Sempre que termino uma faxina, eu faço isso. Pego um pedaço de vidro e vejo até onde aguento. Tento tirar a sujeira de dentro de mim. A vergonha. Essa merda toda. Adianta pouco, mas adianta.
Cavoquei o bolso esquerdo do paletó e ainda estava lá.
- Tá vendo isso aqui, meu chapa?
Estendi a Sergey uma foto antiga, amarelada e corroída pelo tempo.
- Bonita. Quem é?
- Minha mãe. Ela é sueca.
- É? Isso quer dizer que...
- Sim, ela ainda está viva. Pelo menos é o que diziam as cartas dos meus irmãos, três anos atrás.
- E por que você só olha pra ela numa foto, e não em carne e osso?
- Ela tentou me abortar, sabe? Não conseguiu. Depois, aos cinco anos, ela tentou me trocar por um quilo de carne. Também não conseguiu. Aos nove ela tentou me matar. Por pouco obteve sucesso. Depois disso, não lembro de mais nada. Fugi. Fui pulando de reformatório em reformatório. De beco em beco. De viela em viela.
- Essa é a pior história que eu já ouvi.
- Pois é.
- Então me diz por que guardar essas lembranças no bolso do paletó?
- Não sei, ela simplesmente me dá força. Me dá uma razão para viver.
- É. O amor é algo realmente incrível.
- O amor, não. O ódio.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

A grande mãe. Capítulo IV: Ação.

Me permiti observar a tela verde do celular por uns segundos. Me permiti sentir medo. E, Deus, como eu me permiti sentir medo. Acredito que todo o medo que mantive resguardado desde os seis anos de idade vieram à tona nesses segundos. Meus lábios, minhas mãos, meus pés, meus ombros. Todos tremiam incessantemente, irritantemente, desesperadamente. Com a mão, procurei por algo no bolso esquerdo do meu paletó. Encontrei. Respirei aliviado. Saber que ainda estava lá era o que eu precisava para me colocar no lugar. Enfim, com as mãos frias como um cadáver, atendi.
- Alô. – saudou a voz cansada do outro lado da linha.
- Diga. – respondi, sem o mínimo esforço para ser sutil.
- Bohr?! É você?!
- Sim, Pai.
- Posso saber o que diabos você está fazendo com o telefone do meu filho?
- Seu filho está morto, Pai.
- Morto?!
- Sim. Ele tá aqui do lado, completamente furado. Morto. Simples assim.
- Então, aconteceu. Finalmente aconteceu.
- Você sabia, não sabia?
- Sim. Ele já estava morto pra mim há muito tempo.
- Entendo. – concordei, tentando disfarçar a esperança que invadiu minha mente.
- Você sabe, não sabe?
- Sim, tanto é que fiz o que fiz.
- Eu não me refiro ao meu filho. Me refiro a você.
- Como assim?
- Eu vou caçá-lo, Bohr. Caçá-lo impiedosamente. Como cão e gato. Como vício e viciado.
- Eu pensei que estava fazendo um favor ao senhor, Pai.
- Você me fará um favor quando estiver morto, Bohr. Eu só respirarei novamente quando sentir o cheiro do seu sangue misturado ao cheiro da pólvora. Meu coração só voltará a bater quando o seu se silenciar.
Me calei.
- Me entenda, Bohr. Eu não desejo o mal a você. Acontece que você matou meu filho. Sangue do meu sangue. Minha prole. Meu nome. Meu legado. Minha história. E no momento em que você o fez, arrancou tudo isso de mim. Meus setenta e quatro anos jazem aí, ao seu lado.
- Mas, Pai...
- Meu filho.
- Sim?
- Eu não sou seu pai.

O telefone parou de falar. Eu parei de falar. O silêncio reinou absoluto. Mantive-me lá. Sentado. Largado. Morto. Não faço ideia de quanto tempo de passou desde que desliguei o telefone e só começo a despertar do meu transe agora, que vejo, lá no fundo, Sergey correndo desesperado até mim. Tento imaginar o que será dessa vez. Permaneço sentado, já esperando más notícias.
- Bohr! Bohr! Bohr! Por Deus! Estamos fodidos. – esperneou, mal se aguentando em pé.
- Calma. Seu viado. Recupera esse seu fôlego de viadinho. E me diz, viadamente, o que foi.
- Estamos fodidos. Lá fora. Fodeu tudo.
- Viado.
- O quê?
- Nada, eu só acho divertido te chamar de viado. – meu senso de humor é imortal.
- Foda-se. Parou um carro preto lá fora. Se parece muito com o do Boris.
- E você viu se o Solonik estava junto.
- Só o Boris.
- Ótimo. O Solonik seria um problema, o Boris, não. Respira fundo, enxuga o suor e vai lá abrir pra ele.
Sergey virou-se de costas e fui cumprir suas ordens.
- Sergey!
Parou no meio do caminho, sua ansiedade era facilmente perceptível.
- É melhor você ficar lá fora.

Eu realmente não sei por que implico tanto com o Sergey. Ele é obediente como um coelho assustado. Agora, penasndo bem, vai ver é por isso. Caminho até uma mesa velha e permanentemente manchada de vermelho. Rapidamente, separo um martelo, um machado, corda, álcool e um vidro com sangue envelhecido e tripas. Vou até a porta receber minha ilustre visita. Boris é um cara lamentavelmente comum. Nem alto, nem baixo. Nem gordo, nem magro. Peso morto. É um caso parecido com o de Sergey. Só está na família por ser irmão de Solonik.
- Bohr?! O que você faz aqui, meu camarada? – o cara é simpático, coitado.
- Eu que pergunto.
- Meu irmão Solo tá no meio de uma faxina e tá precisando de uns instrumentos. Você não acredita. O Vladimir sabe? O dono da padaria do Vlad. Então, tá lá, pendurado de cabeça pra baixo, há umas três horas, com a rôla de fora. O sangue subiu todo pra cabeça, que já tá mais roxa que a cabeça do pau do cara. O Solo tá esperando subir tudo pra ver se jorra sangue pela testa. Eu apostei que não dá. Ele apostou que sim. Quem ganhar leva o mindinho.
- Legal sua história. Mas isso significa que você ainda não sabe, não é? – deixei de papo furado.
- Não sei? Sei?

Com uma força inigualável, lancei minha testa ao nariz de Boris. Ele caiu rápido, implacável. No chão, seus olhos esboçaram uma reação. Pisei em sua cara. Seus olhos permaneciam abertos. Pisei novamente. Apagou. Levantei-o sem maiores problemas. Joguei seu corpo mole e fraco na mesa. Amarrei os pés, a cabeça e os braços. Dali pra frente, ele era minha posse. Fui afiar o machado, enquanto ele continuava desmaiado. Uns bons minutos se passaram e escutei uns gemidos, que aumentaram rapidamente. Era uma sinfonia de dor. Música de verdade.
- MEU DEUS DO CÉU! O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO, BOHR?!?! QUE PORRA É ESSA?
- Que porra é essa? Bem, vou tentar sem breve. O Tristan, tá vendo ele ali? Então, ele é um puta dum viado. Aí eu gastei um pente inteiro nele. E aí você chegou. E agora você tá aqui. E é isso.
- DESGRAÇADO, FILHO DE UMA VAGABUNDA! ESPERA O SOLO DESCOBRIR. EU VOU ALMOÇAR A PORRA DO SEU CORAÇÃO. EU VOU BEBER O CARALHO DO SEU SANGUE!
- Meu amigo, preste atenção. Não me culpe por tudo o que vai acontecer com você nos próximos minutos. Culpe o destino. O acaso. Você só estava no lugar errado, na hora errada.
- AAARRRRRRRG, SEU...
Levantei o martelo o mais alto possível e com toda a força que coube nos meus braços, levei-o em direção aos dentes de Boris. Que os jogos comecem.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A grande mãe. Capítulo III: Decisão.

E lá estava eu, cara a cara com meu fim. Dourado, frio, sem emoções. Parecia-se bastante com o Pai. Baixei a arma e verifiquei a quantidade de balas no tambor. Completo. Virgem. Engatilhei-a cuidadosamente, com carinho. Não é todo dia que eu posso atirar uma calibre cinquenta. Com certeza o impacto seria muito maior que a minha nove milímetros. Respirei fundo. Me senti preparado. Olhei para trás e vi Yuri, de costas para mim. Eu precisava dizer uma última palavra.
- Yuri?
- Sim?
- Adeus.

Ainda ajoelhado, fechei os olhos e apertei o gatilho com firmeza. Uma vez. A testa se abriu. Duas vezes. Cérebro no asfalto. Três vezes. Lá se vai o olho esquerdo. Quatro vezes. Adeus, nariz. Cinco vezes. Maxilar partido ao meio. Seis vezes. Rosto? Com um pouco de sacrifício me levantei e fui conferir o estrago que tinha feito com o velho Yuri. Acho que me excedi. Seis balas de magnum. Não precisava de tudo isso. Ele não merecia. Eu não tinha o direito. Meus sentimentos ameaçaram um motim, mas eu os contive a tempo. Abri o porta malas. Peguei-o no colo e joguei lá dentro. O olho e o maxilar ficaram no chão. Chutei-os para longe.
Abri a porta e entrei no carro, dessa vez no banco do motorista. Olhei para trás e Sergey estava em pânico. Completamente travado. Branco como um fantasma, violentas gotas de suor escorriam pela sua testa. A boca aberta, as mãos apertadas. Focalizei seu rosto com o retrovisor e dei partida no carro. Entrei na estrada a cento e vinte por hora e assim decidi permanecer. Vinte e cinco minutos me separavam da Fábrica. Infelizmente, eu teria muito tempo para pensar nos meus próximos passos. Fitei os olhos no horizonte. Branco, morto, sem graça. Depois de mim, a neve era a maior assassina que a Rússia já viu.
Infindáveis minutos depois, de longe já dava para ver a Fábrica. De fato, ela chamava a atenção. Hoje em dia, não se vê muitos outros portões pretos de três metros de altura, com uma estrela talhada em bronze no topo. Agora, se a entrada já chamava a atenção, o interior era um inferno gelado. Máquinas de triturar carne, cadeiras com algemas, materiais de tortura, armas, sangue e restos de corpos em decomposição. Era para lá que qualquer membro da Família deveria se dirigir, junto de sua carga viva ou morta, ao fim de uma faxina. Ironicamente, o local que deveria marcar o fim de uma faxina, era só o começo dela.
Parei em frente ao portão e desliguei o carro. Inclinei-me um pouco para trás e acertei meu melhor soco no nariz de Sergey. A reação foi imediata, assim como o sangue. Sem falar nada, desci do carro, alongando-me para abrir o portão de meia tonelada. Sergey veio logo atrás, com a cabeça inclinada. Não restava dúvidas de que ele tinha entendido a mensagem. O portão se abriu com um som perturbador, digno de filmes de terror hollywoodianos. Refleti sobre maneiras diferentes de fazer americanos sangrarem. A mais criativa foi trancá-los num ringue e jogar um único cheeseburger lá dentro. Entrei no carro e acelerei. Era isso. Eu estava novamente na Fábrica. Lar doce lar.
Um a um, as cargas e Yuri foram despachados. Alinhei-os um ao lado do outro. O traficante à esquerda, Tristan no meio e Yuri à direita. Sem nem pensar, retalhei em dez o corpo do traficante e fui passando as partes para Sergey, que as lançava no triturador. O nariz dele ainda pingava um sangue escuro. O vermelho, em contraste com a neve, era maravilhoso. Mais maravilhoso ainda eram os pedaços de corpo, que entravam relativamente inteiros e, em questão de segundos, viravam carne moída. Ó, violência, como és bela. Nunca me deixe. Por Deus, nunca me deixe.
Trabalhávamos como uma perfeita equipe. Sergey limpava o chão e eu o triturador. Era um trabalho sujo. Era um trabalho que eu realmente gostava de fazer.
- Cacete, Sergey! Pra que tanto capricho? Logo mais a neve derrete e lava o sangue.
- É isso. O sangue.
- Tá. É o sangue. E o que que tem o sangue?
- Eu não suporto sangue.
- Talvez esteja na hora de você fazer uma faculdade. – levantei a realidade.
- Entre uma faculdade e a sua família, você ficaria com o quê? - Sergey covardemente perguntou.
- Eu? Eu ficaria com meus colhões.

Como era de se esperar, Sergey escolheu o silêncio como resposta. E assim as coisas permaneceram por uns minutos. Bons minutos, diga-se de passagem. Até que, quando tudo parecia estar melhorando, um ruído rasgou e mijou em cima da minha tranquilidade. Segundos depois, quando meus ouvidos já estavam devidamente acostumados, percebi tratar-se de uma música. A mais filha da puta das músicas. Impaciente, procurei a origem daquela tortura por todos os cantos. A segunda ironia do dia. Em uma sala de tortura eu buscava uma maneira de dar um fim à própria.
E ao passo que a música continuava e minhas tentativas de encontrá-la eram frustradas, eu me tornava um poço de ódio, só esperando Sergey voltar lá de fora para aliviar minha raiva. Encostei perto do corpo de Tristan para pensar numa estratégia e percebi que a música estava cada vez mais perto. Grudei meu ouvido ao seu corpo e comemorei. Havia encontrado. A música parou. Puxei um objeto do seu bolso traseiro. Olhei. Um calafrio percorreu minha espinha em velocidade recorde. Tentei me manter corajoso, mas por uns instantes não consegui. Na tela do celular, lia-se Ludwig Kalashov, carinhosamente chamado de Pai.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A grande mãe. Capítulo II: Negociação.

Virei a chave e levantei a tampa. O cheiro subiu forte, impiedoso, embrulhando meu estômago. Os corpos ainda exalavam uma espécie de calor e o sangue ainda escorria, lentamente. Com muita calma, passeei com os olhos por cada um deles. Contei um total de dezoito furos no Tristan. E mais umas dezenas no traficante viado. Sorri orgulhoso, superior como sempre. Puxei toda a sujeira que encontrei dentro de mim e as cuspi em cima daquela pilha de lixo. Bati o porta malas com força, o que fez respingar um pouco de sangue e talvez miolos no meu terno preto. Yuri desceu do carro e veio ao meu encontro.
- Cacete, você não consegue parar de fazer sujeira.
- É assim que gosto das coisas, Yuri. Sujas. Reais.
- Ahhh, garoto. Um dia, que talvez pode nem chegar, você vai ver que não é assim que o mundo gira.
- É assim que ele gira pra mim. Não tenho do que reclamar até agora.
- Você já esteve no Japão?
- Como?
- No Japão. Você já esteve por lá?
- Claro que não. Nunca precisei fazer uma faxina por lá.
- Pois é. Há uns três anos atrás, fui até lá persuadir um Yakuza a fazer um harikari.
- Harikari? Pensei que você fosse um assassino, e não um diplomata.
- A maior arma que nós temos são as palavras, camarada. Enfim, depois de feito, parei num bar pra dar uma cagada e, ao dar a descarga, qual foi a minha surpresa quando vi que a água girava ao contrário.
- Sério?
- Sério.
- Tá, mas o que essa porra dessa água tem a ver com tudo isso?
- Tem a ver que, pra eles, a água girava pro lado certo, mesmo girando para o lado errado. É a mesma coisa que acontece com você e esse seu mundinho.
Parei para refletir por alguns segundos.
- Yuri?
- Sim.
- Talvez você tenha razão. – consenti, de cabeça baixa.
- É claro, meu bom garoto. Você pode aprender muito comigo. A vida é uma merda, eu sei. Mas ela não precisa ser sempre uma merda.
- Mas, me diga, quem eu vou culpar pela merda que nossas vidas é?
- Mas, me diga você, pra que um culpado, um responsável pela merda das nossas vidas?
- Justiça.
- Justiça? JUSTIÇA? Não seja tolo. O que foi que você disse agora pouco no carro, mesmo? Alguma baboseira sobre a inexistência da justiça e o reinado absoluto de leis fracassadas.
- Foi mais ou menos isso.
- Qual foi a última vez que você esteve em uma mulher?
- De graça?
- Claro.
- Nunca.
- Muitas coisas começam a fazer sentido agora. Sabe? Quando você se esquece do amor, o verdadeiro amor, acaba se lembrando dos sentimentos opostos. E esses, meu filho, ao contrário do amor, nunca mais vão embora.
- Yuri, você me falar sobre água de privada japonesa, tudo bem. Agora, guarde sua melação amorosa para suas prostitutas. Eu só quero saber uma merda de uma coisa.
- Diga, Bohr.
- O que eu faço agora?
- Sinceramente?
- De preferência.
- Honre suas marcas, sua história, sua família.
- É o único jeito, não é?
Yuri só concordou com a cabeça. Seu silêncio se esforçava para demonstrar tristeza.
- Então que assim seja. Eu só gostaria de uma coisa.
- O que quiser.
- Que fosse feito com a sua arma.

Mais uma vez, Yuri concordou com a cabeça. Buscou por uns instantes seu bolso traseiro. Estendeu-me sua Magnum dourada. Mesmo sem qualquer sol, ela reluzia bravamente. Somente quinze pessoas haviam visto um fim naquelas balas calibre cinquenta. É um número mínimo, considerando um homem com mais de mil e trezentas mortes no currículo. A aceitei de bom grado. Com um firme aperto de mãos e um olhar quase sincero, dei adeus ao meu velho parceiro. Yuri permanecia firme, integralmente intacto. Dei cinco passos na direção contraria. E qual foi a minha surpresa ao ver que, a cada passo, não me vinha nada à cabeça. Nenhuma lembrança ou memória, nenhum prazer ou desprazer. Só uma aflição, uma necessidade de cumprir com meu dever. Parei. Ajoelhei. Colei o cano em minha têmpora direita.