quarta-feira, 26 de maio de 2010

A (falta de) carinho na minha vida.

Eu e a madrugada, a madrugada e eu. O céu totalmente preto e minha vida iluminada por uma porra de uma Philips quarenta watts. O meu cu doendo pelos motivos certos. Eu cagava com certa e dolorida frequência já há dias. Eu precisando de uma mulher desesperadamente. Não necessariamente de uma boceta, de uma mulher. Eu sempre me enganando, dizendo não para a realidade, Eu não preciso de vocês, eu sou um cara do caralho, dizendo. E a realidade cuspindo na minha cara um muco com cheiro de lubrificação vaginal. O resumo da minha vida, meus amigos. O resumo da minha existência.
Minha ex-mulher continuava sendo minha ex-mulher. Eu lia Mirisola e Fante. Mirisola lambia azulejos e frequentava o quartinho da empregada, Fante alucinadamente apaixonado com a pica dentro da cueca. O filho morrendo e Bandini esperando a primavera. E nenhuma das ideias me era interessante. O trabalho a mesma merda de sempre. A vida de filho da puta. Eu marcava encontros atrás de encontros, discava no telefone com a mesma velocidade da minha primeira gozada. Coisa de segundos. E nenhuma das mulheres me era interessante. Eu tentando me manter forte. Eu me dando o direito de selecionar.
Os encontros duravam a mesma coisa que a minha habilidade na hora de discar ou a minha inabilidade para bater punhetas.
- Alô?
- Quem fala?
- É o Vito.
- Que Vito?
- Quer sair?
- Não.
E o silêncio. E isso era um encontro.

Eu me acostumava com o fracasso, me tornava ainda mais íntimo dele. Eu mandava ele se foder, lamber o cu da mãe e coisas desse calibre, mas ele insistia em manter contato. Insistente, esse tal fracasso. Eu pulava de bar em bar, sempre repetindo o processo. Buscar distância da multidão, beber o suficiente para sorrir, ficar imóvel, esperar as fêmeas se aproximarem. O processo sempre fluía até a quarta etapa. Ali empacava e ali ficava. Até o amanhecer, a dor e as lágrimas chegarem. O sofrimento como companhia. Eu chegando no bar e saudando o garçom. A estranha intimidade de novo.
Eu e a madrugada, a madrugada e eu. Passava das três da manhã e o processo ia fluindo naturalmente. Perdi um tempo a mais na segunda etapa, mas tudo estava indo de acordo com o planejado por Deus ou qualquer outro cara barbudo de turbante que criou as leis do homem e da humanidade e das outras pessoas que acompanham esses dois. O tal homem e a tal humanidade, inimigos até os ossos e o seu cálcio que revigora qualquer um.
A dor já havia chegado, o banheiro já havia sido utilizado. Só faltava as lágrimas chegarem para a festa. A FESTA DA LAMÚRIA. Beije-me, dor. Eu te quero, eu te desejo muito, eu dizia comigo mesmo, me divertindo com minha infelicidade. Um paradoxo e tanto, diria o meu professor de filosofia, que considerava tudo uma porra de um paradoxo.
- Professor, eu tô com um problema, sabe? – eu disse, certa vez.
- Diga, Vito. Abra-se. – ele era viado.
- Eu quero mais boquetes, mas minha namorada insiste em me beijar depois dos boquetes. EU NÃO QUERO GOSTO DE PICA NA MINHA CARA, EU QUERO BOQUETES. E agora?
- Um paradoxo e tanto, diria o meu professor de filosofia. – ele respondia.
Eu sempre aguardava uma conclusão, mas ela nunca veio. E ele saía, procurando algum calouro para chupar e um veterano para colocar o dedo no rabo dele. E eu até hoje não sei o que significa paradoxo, embora vivesse um nesse momento.

Eu pensava na vida e sentia a porra do Nilo se agitando atrás dos meus olhos. A crueldade da realidade sempre surtia esse efeito em mim. Ao menos desde que decidi me afundar na própria merda. A garganta cheia de bosta. E logo estaria tudo pronto e eu liberado para a minha casa e a minha parede mais bela de todas. Fante tinha um braço, eu tenho uma parede. E uma pica, obviamente. Uma bela pica. Pedi uma garrafa do pior vinho da casa para viagem, já prevendo o meu futuro e o futuro dessa madrugada do dia que eu não sei qual é. E ela parando do meu lado.
Cabelos castanhos, olhos finos e o sorriso mais divertido da minha vida tragicômica. A beleza do resto acompanhando a beleza do sorriso. Convide-me para a sua casa ou saia de perto de mim, eu disse. Ela puxou minha mão e me guiou até seu lugar, que ficava há umas três ou quatro ou cinco quadras dali. Nenhuma palavra no caminho. A mulher perfeita. A boceta a ser fodida, embora eu sentisse falta só de uma mulher mesmo.
Eu gosto de noites sem destino certo. A incerteza sempre foi minha grande paixão. Entramos em sua casa e tudo parecia de brinquedo. O sofá, a televisão, a geladeira. Tudo parecia de plástico, tudo parecia inflamável. E a minha cueca já apertada. Eu não sabia brincar e tinha minhas próprias necessidades. Desculpe, benzinho. Ela foi até a cozinha e trouxe um pouco de cerveja num copinho de brincar de casinha. Eu agradeci, tomei num gole só e depois me dediquei a acariciar o seu rosto com todo o cuidado do mundo. Os dedos passeando pela pele suave, ela sorrindo e eu apaixonado.
Ficamos nessa por uns minutos. Os dedos, as bochechas, os toques. Tudo lindo. O meu coração aquecido, a sensação da vida lutando para manter sua natureza. Eu me tornava cada vez melhor em descrever sensações e cada vez pior em descrever aparências. Sinal de que as coisas não iam bem para mim. Eu me tornando um ser humano melhor e bondoso e vendo aquela porra que realmente importa guardada dentro das pessoas, junto com os órgãos, os fluídos e toda aquela merda. Eu indo pro céu, beijando a cara de Cristo. Eu um cidadão do bem. Eu pagando meus impostos e indo buscar uma criança gordinha e fofinha na escola, meu filho. Eu me suicidando aos trinta e três.
Ela fechou os olhos e se entregou encarecidamente aos meus cuidados miseráveis. Tudo lindo. E eu ainda não sabia o nome da minha princesa, mas a apelidei de princesa.
- Princesa, eu te amo, princesa.
O silêncio e os olhos fechados.
- Princesa, eu não preciso de mais nada quando estou com você, princesa.
O silêncio e o corpo quente.
- Princesa, eu quero fazer amorzinho gostosinho com você, princesa.
O silêncio e o suicídio aos trinta e três.
- Princesa, tira essa porra dessa roupa, princesa.

A campainha tocou, ela abriu aqueles olhos miúdos e, num pulo, deixou meu colo e todo o meu amor inconveniente e incondicional. O corpo quente tremendo de alegria. E eu lá sentado esperando e pensando Essa agora?. A cabeça jogada pra trás e a mão na testa, refletindo sobre o quão ruim minha noite terminaria, ou começaria. As coisas andavam estranhas, confesso, e eu já não sabia mais o que esperar das surpresas. Das surpresas da vida. Aquelas coisinhas que fazem você achar que ainda vale a pena levantar de dia e deitar de noite. Aquelas coisinhas que fazem a sua barriga gelar como se você estivesse apaixonado. Porra nenhuma.
A porta abriu e um cara entrou. O cabelo caído nos olhos, o andar arrastado. Camisa de flanela, bermuda anos noventa do Palmeiras, chinelo de dedo. A voz doce, de criança ainda. Os braços finos, sem pelos, de criança ainda. Não cumprimentou, só passou, devagarzinho, pra cozinha. Abriu uma caixa de suco de laranja de criança ainda e tomou no gargalo. Ela olhou pra mim, mostrou aqueles dentes simpáticos e foi pro outro sofá. Ele foi e sentou-se do lado. A mão nos cabelos castanhos, a boca cada vez mais próxima, as pernas se relando em sinal de carinho e aceitação. Ela na dele. Ele na dela. Aquelas coisinhas que fazem a sua barriga gelar como se você estivesse apaixonado. Porra nenhuma.
Levantei, mijei na planta e saí. O silêncio e a juventude.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

A (falta de) boceta na minha vida.

Era domingo e eu não tinha porra nenhuma para fazer. Eu admirava a minha parede e a poesia era a coisa mais bela na minha vida, naquele momento. Me lembrei de quando vi a morte agindo, naquela tarde estranha há sei lá quanto tempo. O tempo passa rápido quando você está na mesma merda. Jack ainda não falava direito comigo, e eu não era idolatrado há uns bons meses. E a única coisa que me mantinha distante disso tudo era a preguiça. Eu abraçava a letargia, mordia-a bem no meio da espinha, colocando toda a força do mundo nos meus maxilares. Mas eu era isso mesmo. Eu era essa massa imóvel e ignóbil, e nem fodendo que eu iria mudar agora, há essa altura do campeonato, não tão longe da morte assim. Que ela venha, eu não tenho medo de caralho encapuzado nenhum.
Mas eu me sentia só. No fundo, no lugar onde guardo os sentimentos mais imbecis, como compaixão, eu me sentia só. A solidão apertava meu peito ao mesmo tempo em que eu apertava minhas bolas, desejando uma boceta nova. Minha ex-mulher não lembrava de mim há um bom tempo e eu não tinha confiança para, simplesmente, buscar alguma boceta em algum lugar. Conseguir mulher é uma coisa, boceta é outra coisa. Abri uma garrafa de vodka e liguei no canal pornô. Um negro imenso enfiava tudo o que tinha em uma japonesinha. Peitos miúdos, olhinhos apertados, uma rôla gigantesca e lágrimas. E eu só conseguia pensar na mãe daqueles olhinhos apertados.
Desliguei e me senti enjoado. Meu estômago se revirava em sinal de repulsa. A mãe daqueles olhos, agora cobertos de porra, não saía do meu alcance. E respirar doía e eu preferia estar morto a estar excitado. Corri para o banheiro e bati uma punheta com a porta aberta. Ao fim, soquei meu estômago quatro vezes, com toda a força que minhas mãos conseguiram conter. O impacto me fez vomitar, mas nada saía. Água, um pouco de bolachas e sangue. Quando você não tem nada para vomitar, o seu corpo leva um pouco do seu sangue mesmo. É como se ele dissesse Você ainda tem bastante dessa merda, foda-se você, enquanto exalava aquilo que mantém você vivo. Eu estava, oficialmente, no fundo do poço.
Era domingo e eu não tinha porra nenhuma para fazer. Cogitei comprar um cachorro mas desisti assim que lembrei do meu primeiro animal de estimação. Era um coelho, e eu tinha sete anos. Lembrei do momento em que decidi abri-lo ao meio com uma faca, tirando o coraçãozinho, o pulmãozinho e todos aqueles outros órgãos tão pequenininhos. Lembrei que, logo em seguida, plantei-o nos fundos de casa. E reguei. E reguei. E reguei. Por três meses eu reguei o meu coelhinho todos os dias. Mas a minha árvore de coelhos nunca veio. E, hoje, isso me parece uma ideia um tanto quanto imbecil. Se ao menos eu tivesse tentado com um hamster.
Deitei, fechei os olhos e fiquei nessa. A vida indo.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Quando nem sua merda deseja você.

Eu estava sentado, fazendo força, de olhos fechados lendo alguma coisa e torcendo para a merda vir, mas ela insistia em permanecer dentro de mim. Toda a merda da minha vida habitava o meu estômago já a mais de uma semana e parecia gostar da vizinhança. Um fígado mal humorado, um coração maltratado, uns pulmões preguiçosos e o inútil do apêndice. Mas, apesar disso, eu não culpava minha merda. Ela só fazia o que era melhor para ela. Por pior que eu estivesse por dentro, eu estava melhor do que por fora. E o mundo por aqui já tem merda o suficiente, a concorrência seria desleal. Ela era, simplesmente, egoísta. Ela estava aprendendo a ser um ser humano. E por isso ela permanecia dentro de mim.
Terminei as palavras cruzadas, passei o papel no rabo só para confirmar o meu fracasso e subi minhas calças. Olhei para o espelho e tive nojo do que vi. Eu já vinha me enganando há alguns meses. Lendo livros de autoajuda e pagando meu psiquiatra para ele falar tudo o que eu queria ouvir. Você é um cara lindo, Vito. Você é um cara interessante, só precisa buscar isso dentro de você. Você é grande, Vito, ele dizia, seção após seção. Papo de quem quer foder alguma coisa. E com toda a certeza do mundo ele fazia muito mais sucesso que eu. Eu e minha mão direita. Minha amante e melhor amiga.
Vesti uma camiseta fina e um jeans cheirando a talco. Coisas de centenas de reais em um mero pedaço de pano. Aquilo era autoestima por centímetro quadrado, mas eu só encontrava a minha auto-piedade. E o meu estômago doía e o meu coração apertava. Fui até a geladeira, virei uma garrafa de leite dentro de meia garrafa de vodka, chacoalhei, guardei no cantil, tomei um gole de quinze segundos e saí pela porta, fugindo do espelho da mesma forma que o homem moderno foge de casamento. E eu conjugava frases imensas na minha cabeça. Frases que precisariam de muitas vírgulas e muita paciência para serem escritas ou lidas. Mas elas insistiam em sair uma merda. Escrever era a única maneira de expelir a merda de dentro de mim. E o resultado eram textos de merda, assim como anúncios e títulos de bosta.
Eu caminhava pela rua. Uma festa rolava não muito longe dali e aquele seria o meu destino da noite. Fui a pé por orientação do meu cardiologista, alguém que eu pago para falar tudo aquilo o que eu não quero ouvir. Você está fodido, Vito. Você é um cara que não vai durar muito, só tem mais uns seis anos pela frente. Você é frágil, Vito, ele dizia, seção após seção. E eu ria, e rir fazia meu cérebro doer. Era uma sensação de estranheza. A felicidade era rara. Eu busquei uma explicação para meu riso e para minha alegria. Chacoalhei meu cantil e percebi que nada mais restava. E aquele era o fim do mistério.
Cheguei ao meu destino. KropKrop. Um lugar escuro, do tipo que passa batido, que se camufla com a paisagem da cidade. O que todo mundo sabe não se tratar de algo bom. A garota da porta me cumprimentou com um beijo no rosto e uma intimidade um tanto quanto estranha, mas compreensível. Eu já havia passado várias noites por ali. Às vezes sozinho, às vezes acompanhado, sempre bêbado e sempre com um ar de superior que eu já não era mais capaz de sustentar. Mas foi bom sentir um pouco de afeto. Ela era loira, magra, com um rosto triste. E eu a amava, naquele instante. Paguei a metade do preço para entrar, pisquei para a outra garota da porta. Ela era loira, magra, com um rosto cansado. E eu a amava muito, naquele instante. A vodka com leite já havia acabado e me apaixonar era tudo o que me restava.
Entrei e a música veio alto na minha cara, cuspindo nos meus ouvidos um monte de mensagens vazias e efeitos irritantes de guitarra. Eu conhecia muita gente ali. Eu cumprimentava com a cabeça e vez ou outra com uma das mãos, mas nunca me dando ao trabalho de ser agradável ou de deixar transparecer a minha simpatia. Meu peito estava estufado, meus ombros mais duros do que minha própria pica. E eu queria parecer alguém. Eu queria ser notado, só para poder reclamar do fato de ninguém me deixar em paz. Peguei três cervejas no bar, fiz minha melhor pose e me encaixei no balcão. O corpo esticado, a mão no bolso, bebendo uma cerveja atrás da outra. E a bandinha falando sobre bossa nova e labirintite.
Eu vi um cara cair de tanto beber e fumar maconha e abrir um rasgo na mão. E eu o achei a pessoa mais incrível do mundo, morrendo de vontade de abraçá-lo. Isso porque ele conseguia sangrar, ele conseguia deixar sair a vida de dentro dele. E a bandinha falando de labirintite. A ironia era engraçada e o guitarrista um filho da puta. As melhores garotas da festa olhavam para ele, passando a mão pelo corpo, jogando o cabelo, sendo estúpidas, sendo mulher. Soquei a parede de raiva e eu estava oficialmente bêbado.
Fui ao banheiro mijar. Tirei minha imensa pica de dentro da calça e segurei-a orgulhoso com a mão direita. Um cara de cabelo alisado, jaqueta de couro, calça número trinta e quatro e camiseta tamanho doze entrou e parou do meu lado. Ele abria o zíper quando deu uma conferida no meu pau. Fechou o zíper, abaixou a cabeça e saiu pela porta. SIM, MEU AMIGO, MEU PAU É ENORME E É MUITO MAIOR QUE O SEU, SEU BICHA, eu gritei as minhas verdades. Terminei de mijar, guardei o causador da discórdia, fechei o zíper e fui saindo sem lavar as mãos. Até que o segurança apareceu na minha frente. Uma parede preta. Dois metros e cento e quarenta quilos de fome, miséria e sete filhos para criar.
- Não pode fumar maconha no banheiro. – disse ele.
- No banheiro, não, mas na sua aldeia tá rolando maconha pra caralho, não é? – eu disse e depois sorri.
- Eu tô falando sério. Não pode fumar maconha aqui.
- Amigo, eu não estava fumando maconha. Eu simplesmente estava mijando, ok? Se eu quisesse fumar maconha você saberia. Eu compraria com você.
- Cadê o baseado, seu filho de uma puta?
- EU JÁ FALEI QUE EU TAVA MIJANDO. MIJANDO. MIJO. AMARELO. AMÔNIA.
- Mão na parede e abre as pernas.
Eu abri o zíper disfarçadamente e o fiz. Ele começou a me revistar. Começou pelo tronco, os bolsos do casaco, os bolsos das calças, olhava para mim como seu bisavô olhava para o seu senhor. Ele se ajoelhou e começou a revistar minhas pernas.
- MEU AMIGO. MEU AMIGO. MEU AMIGO. – gritei para o meu amigo macaco.
Ele, ajoelhado, olhou para cima.
- PRESENTINHO PRA VOCÊ.
Abaixei minha cueca e a minha pica caiu bem em cima daquela testa escura dele. Era como um segundo nariz. E era engraçado para caralho. Os olhos brancos arregalados, a pupila se confundia com o resto do rosto. E a cara de choque. E a piroca nariz. Fechei meu zíper pela segunda vez, ele respirou fundo, se levantou e saiu do banheiro. O cheiro que saía era de desejo. Desejo de homicídio. Ele tinha uma necessidade absurda de me matar, mas uma necessidade ainda maior de alimentar as vinte e sete boquinhas negras na aldeia dele. Senti um pouco de confiança novamente, lavei as mãos e saí do banheiro.

Eu passava por aquele mar de gente, deixando meu ombro falar mais alto. De vez em quando levantava o queixo, era a mensagem, era o convite para a morte. Ninguém nunca aceitava. Eu era a porra do macho alfa, do leão dominante, do ditador. Eu era a porra do Adolf Hitler. Isso até alguém aceitar o meu convite para a morte e eu voltar a ser o pedaço de merda que sou. Mas, até lá, eu era tudo isso. E seguia solitário.
Peguei mais três cervejas e tomei as três em três goles. Três mais três mais três é igual a nove e isso foi o suficiente para eu dar nove reais de gorjeta para a garota do caixa. Compra um sutien novo, babe. Você tem peitos deliciosos, eles merecem algo melhor, eu disse. Ela sorriu e concordou com a cabeça, mas eu sabia que ela gastaria aquele dinheiro comprando um teste de gravidez ou algo do tipo.
E agora eu estava alucinado, rangendo os dentes, procurando briga e boceta. Boceta e briga. Pedi mais duas cervejas e saí pela festa com uma em cada mão, decidindo minhas prioridades. Briga e boceta. Boceta e briga. Encontrei uma das meninas mais lindas do lugar e eu já sabia bem o que queria. Os cabelos eram ruivos e o rosto levemente redondo. E eu estava apaixonado pela terceira vez na noite. Ensaiei algumas frases e me aproximei.
- Você. É. Linda. – e isso foi o melhor que eu tinha pra dizer.
- Obrigada. – e isso foi o melhor que ela tinha pra dizer.
- Se eu te beijar você vai ficar muito brava?
- Provavelmente. Eu tenho alguém.
- E cadê ele?
- Em outra cidade.
- Isso significa que, aqui, você pode ser minha.
- O problema não é poder, o problema é querer.

E TUDO VEIO ABAIXO. TODA A AUTOESTIMA QUE VIM CONSTRUINDO AO LONGO DA NOITE. O OMBRO DE PEDRA, O QUEIXO ERGUIDO, A PICA NARIZ, O MEU PSIQUIATRA. TUDO VIROU LIXO. TUDO VIROU MERDA E ENTROU NO MEU ESTÔMAGO, JUNTO COM AS OUTRAS MERDAS PATRIARCAS. Abaixei minha cabeça e fui saindo. Ela me chamou.
- Meu, vem aqui.
Eu parei em frente a ela. Só a carcaça de um ser humano.
- Desculpa se fui grossa. Sério.
- Tudo bem. A grosseria é algo intrínseco de vocês, mulheres, eu compreendo perfeitamente.
- Olha, não foi minha intenção. É que eu realmente tenho alguém. Esse cara, sabe, eu sou apaixonada por ele há anos. Muitos e muitos anos. E não falo com ele a meses. Meses e muitos meses. E hoje, HOJE, ele me ligou. E eu tô radiante, meu. Eu sou uma porra de uma estrela no céu. Você não vê? Eu estou brilhando de alegria. Eu não consigo pensar em absolutamente mais nada.
- Ele fez isso só pra te comer, você sabe.

Ela ignorou a minha estupidez e continuou falando por muito tempo. E nesse muito tempo eu fiz questão de expor toda a nojeira da raça masculina. Tudo o que há de pior sobre nós. Toda a nossa merda guardada na vizinhança do meu estômago, e no estômago de cada homem filho de uma puta como eu. E ela só ouvia, com aquele sorriso lindo no rosto. Ela ouvia e aceitava, e sabia que era verdade, e sabia que precisava daquilo para viver e sobreviver. E eu me sentia triste por mim e feliz por ela. Uma conformista. Uma linda conformista, capaz de conviver com um macaco albino como eu. Ela me abraçava e sorria. E fazia questão de ser linda a cada segundo. E eu sujo, desenvolvendo minha sujeira pela minha boca que só cuspia aquilo que deveria ficar guardado. E ficamos naquela por um tempo. O tempo passou, ela me abraçou, eu acabei com a minha imagem ou com o que restava da minha dignidade, ela me abraçou mais uma vez e se foi, antes que eu pudesse saber o nome dela. Ela com aquele cabelo vermelho e aquele rostinho.
Fiquei parado olhando pro nada por quase uma hora. O sol nascia lá fora e não tinha quase mais ninguém ao meu redor. E eu me senti em casa e me senti solitário e deprimido. Abri a porta e saí, com a garota da porta me dando tchau com o mesmo beijo no rosto, o mesmo cabelo loiro, a mesma magreza e a mesma cara de triste. Mas eu já não era mais capaz de me apaixonar. Eu era um descrente e a paixão já não fazia mais parte do meu leque de sentimentos.
Fui caminhando pelas ruas. A cabeça baixa e o coração em frangalhos. Chutando latas e pisando em anúncios e folhetos. E pisando no meu trabalho e no meu futuro. Cheguei em casa, escrevi alguma coisa na parede e fui para o banheiro. Abaixei minhas calças, sentei, fiz força e consegui. Finalmente. A merda saía. Eu conseguia expulsar parte da merda que estava dentro de mim a tanto tempo. Eu ouvia choros e despedidas. A merda dando adeus ao fígado, que resmungava de dor. O coração maltratado, chorando por ser tão pobrezinho. Os pulmões em casa, chorando por terem trabalhado. Eu chorando por dentro e por fora. Cagar era uma emoção. Ver a merda deixar meu corpo era uma emoção. E as lágrimas escorrendo na mesma proporção que a merda ia descendo. Fechei os olhos e senti a vida me deixar. O fim de semana tinha acabado e eu estava sozinho mais uma vez.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Porcos gostam de sujeira.

Nem se lembrava da última vez em que esteve tão feliz. Seu sorriso era incontrolável, ele simplesmente acontecia. Era como a fome na África. Já havia desabotoado os primeiros botões da camisa e tirado os sapatos. Queria parecer jovem. O cabelo cheio de gel, a cueca mais limpa que tinha no guarda-roupa. O bolso cheio de KY. Assobiava umas músicas do The Mamas and the Papas e tentava repassar mentalmente as posições que havia lido num livro. Coisa de contorcionista.
Tocou a campainha e esperou. A porta continuava fechada, igual à cara do Gonçalves, o mais filho da puta dos filhos da puta da repartição. Gonçalves, seu pé no cu, pensou e tocou a campainha de novo. Esperou mais uns segundos e seu sorriso já não era tão forte assim. Até que a porta se abriu, e ele se acendeu mais uma vez. A fome na África continuava lá, mas pelo menos ele sorria. Ela abriu a porta gargalhando e contorcendo-se de tanto que se divertia. Nem olhou em seu rosto, a alegria a havia cegado. E ele só ficou lá, parado, esperando ela parar de rir. Ela parou.
- Entra logo, porra!
- Não vou incomodar nada?
- Vai me incomodar você aí, parado, com essa pica mole e essa cara de bosta. Vem se divertir.

Ela o puxou pelo braço e o encaminhou para dentro do seu apartamento. Ele odiava quando ela falava daquele jeito. O cheiro era doce. A fumaça dançava por entre a pouca luz que saía do abajur. E aquilo era maconha, e aquilo era bom pra cacete, mas aquilo deixava ele de pau mole. E, naquela noite, especificamente, o pau dele precisava subir. Procurou uma garrafa ainda cheia em cima da mesa e encontrou um pouco de saquê. Tomou um gole, achou horrível, mas manteve o copo na mão. Sentou-se no sofá, cruzou as pernas, tomou mais um gole, achou ruim mais uma vez e, sem ela perceber, largou o copo num canto qualquer. E ela ainda não o havia beijado.
Ouviu um barulho de descarga vindo de não muito longe dali. Sentiu-se incomodado, mas escondeu o sentimento. Aquela noite era dele e dela, e de repente tinha alguém fazendo merda no banheiro e ela ainda estava na cozinha fazendo um Bloody Mary, cujo sabor lhe dava náuseas. Contou os passos do sujeito do banheiro até a sala. Deram dois passos e meio. Ele já estava cansado de tentar tirá-la dali, de tentar levá-la para seu apartamento, com o quádruplo do tamanho daquele, o que não significava riqueza nenhuma. Até que seu algoz surgiu em sua frente.
É só isso? Essa porra aí?, pensou. A boca do sujeito estava suja de vômito. Ainda suja. Seus olhos estavam perdidos e sua voz era arrastada antes mesmo de ele se pronunciar. Usava uma camisa xadrez de flanela e a calça tinha furos nos joelhos. Sem sinal de sapatos. Que original. Ele veio, meio mole, meio morto, e se sentou ao seu lado.
- O que te traz aqui? – perguntou, a voz arrastada.
- Ela.
- Sabe o que me traz aqui?
- Não.
- Meus pés, cara. Eu não preciso de mais nada, além da minha liberdade e dos meus pés. Um passinho, dois passinhos e eu vou onde eu quero. Esse porquinho aqui, do lado desse porquinho aqui, do lado desse e do lado desse e do lado desse. - disse, mexendo nos dedos dos pés, um a um - MEUS PORQUINHOS, CARA!
- Legal. Belos porquinhos você tem.
- Pois é. Sabe por quê? Porque eu não mantenho eles presos em sapatos. É! Eu sei que você usa sapatos, cara. Não adianta tirá-los e largá-los por aí. Porque eu sei que você usa sapatos. Belos sapatos, sapatos caros. Você não tem porquinhos. Você é um porquinho. Um porquinho capitalista.

Ele riu com o canto da boca, tentando se manter superior e se esforçando para esconder o ciúme que tinha daquela situação toda. Ela voltou com três Bloody Mary e ele se sentiu aliviado e depois nauseado. Ela e o sujeito viraram aquele sangue de menstruação com gosto de tomate em poucos goles. Coisa de quem já tá na mesma há um bom tempo. Ele continuou segurando-o e esquentando-o. Assim pelo menos ele teria uma desculpa. Ele já imaginava o diálogo.
- Porra, bebê, isso aqui tá quente. – ele diria.
- Nossa, é verdade. Não precisa tomar mais não. Agora deixa eu chupar o seu pau. – ela responderia.
E ele só imaginava.

O silêncio sufocava. Muito mais do que a gravata ou os sapatos. Nesse ponto o sujeito tinha lá a sua razão. Sapatos eram uma merda. Ela abriu a boca e começou a falar frases aleatórias sobre Godard, Tolstoi e a fome na África. Mas aquilo não era ela. Ela forçava, queria impressionar de qualquer forma. Não a ele, mas ao sujeito. E o sujeito só consentia, mexia a cabeça para cima, para baixo, para a direita, para a esquerda. O sujeito era a voz da razão sem voz, nem razão.
Ele se mantinha calado e odiava tudo aquilo. O sujeito se virou para ele e começou a falar mais. E ele sumiu dali. Sabia que o sujeito falava algumas coisas sobre capitalismo, gel para cabelo, ternos e porcos. Os porcos voltavam toda hora. A boca parecendo um chiqueiro. Pelos porcos e pelo vômito. E ele em outro lugar, sem ser ali.
Cansado de ouvir, ele se levantou. O copo ainda cheio de Bloody Mary na mão e as bolas bem guardadas na sua melhor e mais limpa cueca. Respirou fundo. Ela fazia silêncio, o sujeito falava sobre a ditadura, mesmo tendo nascido anos depois dela. Ergueu seu copo, homenageou os que já se foram e o estraçalhou na parede, gritando ISSO SIM É ARTE! ISSO SIM É A REALIDADE, MEU CARO AMIGO HIPPIE. ESSA BOCETA NA PAREDE É O SEU SISTEMA SOCIALISTA DE MERDA. ELE É VERMELHO E ESCORRE, IGUAL ESSA PORRA DE RESTO DE VÔMITO NA SUA BOCA, SEU MERDA. AGORA LEVANTA E VAI LÁ LAMBER A SUJEIRA. POR QUE EU SEI QUE VOCÊ GOSTA DE SUJEIRA.
Fechou os primeiros botões da camisa, calçou os sapatos, agarrou-a pela cintura e a levou para o quarto. No meio do caminho, ela pedia para ser comida. Implorava e gemia, com aquele pau ainda muito longe dela. E ao fundo o sujeito lambia e grunhia. Quem é o porco agora, seu filho da puta?, pensou. Fechou a porta do quarto e o mundo voltou à ordem do lado de fora, enquanto a bagunça começava do lado de dentro.

terça-feira, 13 de abril de 2010

O começo.

Las Vegas costuma ser uma cidade quente. Lembro-me bem de uns verões de quarenta e seis graus, coisa de país subdesenvolvido. Não sei se esse calor todo vem do jogo, da bebida ou das drogas. Mas sei que hoje a noite amanheceu especialmente fria. Ainda assim, nada insuportável. Só fria. O suficiente para me fazer pegar um casaco velho que meu pai me deu no verão de oitenta e nove. Puta que pariu ganhar um casaco de presente em pleno verão. Meu velho sempre foi fã de uma liquidação vagabunda. Sempre foi um bosta também. Pai de merda, eu tive.
Estou bêbado, caminhando por uma calçada suja, lamacenta e cagada, equilibrando-me em portas fechadas, pichadas e mijadas. Meu hobby nessas horas é ler panfletos espalhados pelo chão. Às vezes, dá pra descolar umas horas de distração com eles. A minha vida é uma merda e eu sei disso, pelo menos por essa noite. Mas, tudo bem, sinto-me no lugar certo. Sinto-me em casa.
Sigo pela escuridão. Até que, após quinze minutos de caminhada, ouço uns cochichos vindos bem de pertinho. Inclino a cabeça para escutar o que a moça semidesmaiada e seminua que carrego nas costas quer. Coitada, os panfletos estavam tão interessantes que me esqueci dela.
- Alô... Que... É... Que... Onde? – tenta falar a jovem, desnorteada.
- Faz silêncio. Tá tarde pra cacete. Amanhã eu te explico. – oriento.

A tal mulher obedece e se cala. Desmaia, na verdade. Ainda assim, é ótimo saber que tenho algum controle sobre a situação. Seguimos bambos por essa cidade imunda. Eu tento desviar de poças de sonhos disfarçadas de vômito. Em vão. Na sola esquerda do meu New Balance noventa e sete um ator coadjuvante, e na direita uma bailarina acima do peso. Estou estranhamente agressivo hoje. Eu costumo ficar irritado quando tomo uísque, mas não agressivo. Vai ver é o frio. Sinto meus dentes rangendo e confirmo: É, é o frio, sim.
Só mais três minutos andando (ou, pelo menos, tentando) e encontro-me na porta de casa. Eu e minha amiga desconhecida. Tem um Ford preto parado do outro lado da rua. É raro um desses por essas bandas. O lugar onde estou tentando viver é um edifício antigo, devidamente detonado pelo tempo. Já foi o lar de algumas estrelas emergentes da Broadway e de alguns traficantes poderosos. Hoje é o lar de umas putas velhas, uns viciados e uns veteranos do Vietnã. Não importa, esse é o meu lar. Pelo menos até algo tão ruim aparecer. Procuro bruscamente pelas chaves no bolso traseiro do meu jeans. Enquanto faço isso fico imaginando como seria maravilhoso encontrar uma nota de dez dólares esquecida. Como seria intenso sentir aquela sensação momentânea de esperança. Ô, que saudades dessa sensação.
Merda! Encontro somente meu molho de chaves. Está escuro, mas eu sei que é o meu molho de chaves. Que eu saiba, só eu tenho um chaveiro do Darth Vader nesse prédio. Abro a porta e, como de costume, ela faz um barulho enorme, por mais cuidado que eu tome. Entro com o pé esquerdo e tomo um susto. Havia me esquecido como é nojento o hall de entrada do prédio. Lembro-me da casa dos meus pais.
Com um pouco de sacrifício, começo a subir as escadas. Lá pelo quinto degrau, minhas orelhas começam a ficar vermelhas. Culpa do cansaço. Culpa da raiva de chegar até aqui. Para ser sincero, eu queria, mesmo, era ter desmaiado no boteco, como faço toda sexta-feira. Pena que hoje é sábado. Ainda faltam umas três dezenas de degraus. Explodo. “PORRA, SUA VACA! ACORDA!”. Ela nem se move. Tadinha, nem esperei ela acordar pra falar minhas asneiras. Foda-se.
Alguns metros acima encontro um casal. Ou melhor, uma puta e seu cliente. Um lugar como esse há uma hora como essa não tem espaço para apaixonados. Eles nem se importam comigo ou com a minha amiga. Eu passo e comprimento com a cabeça. Não é porque eles tão se fodendo que eu vou pouco me foder pra eles. Sigo tentando chegar até meu quarto, pensando em como aquelas escadas devem estar geladas e desconfortáveis. Eu ando pensando muito ultimamente. Devo confessar que isso me preocupa.
Lar doce lar. Finalmente estou em casa. Chego exausto demais para prestar atenção onde piso ou para fechar a torneira da pia, que pinga há dois dias. Alguns passos e estou frente a frente com minha cama. Jogo a desconhecida em cima do colchão sem lençol, cubro-a com um cobertor surrado e deito-me ao seu lado. Se não fosse tudo o que aconteceu, diria se tratar de um momento bonito, um começo.
Essa noite eu só quero dormir. Dormir com as roupas do corpo, sem banho. Dormir do jeito que vivi o dia. Levar as lembranças pra cama. Começo a fechar os olhos, quando subitamente a individua desperta do seu sono profundo, da mesma forma que a Bela Adormecida acorda ao beijo do príncipe. Olho ao redor pra ver se acho algum príncipe misterioso. Só eu. E ela.
- Que... On... Que horas são, porra? – pergunta ela, sem cerimônias.
- Não acredito. Agora que é a hora de dormir você acorda. – observo, sem malícia.
- Dá pra me responder? – da onde veio tanta hostilidade?
- A hora não importa. Volta a dormir.
- Dormir? Rárárá! Meu amigo, você sabe o quanto eu bebi essa noite?
- Não tanto quanto eu. Isso eu posso te garantir.
- Que bom que eu não preciso de tanto assim para ficar excitada.
- Puta que pariu. Na boa? Estou começando a preferir você desma...

Não deu pra terminar a minha frase. Já ela, ela, sim, terminou de tirar o tomara-que-caia preto que vestia. Sutiã eu não vi em nenhum lugar. Maravilha, assim fica mais fácil. Sutiãs sempre me atormentaram. Ela tem sede de sexo e, talvez, algo a mais. Abre o zíper da saia quase tão rápido quanto arranca os jeans do meu corpo. Sua boca procura a minha desesperadamente. Encontra, satisfeita. Estamos em chamas. Estamos bêbados. Eu seguro sua cintura com força, quase com raiva. Já não me lembro de quase nada do bar até aqui. Começo a me sentir um pouco mais pecador que o costume. Foda-se. A partir daqui, a noite promete.

Nota imbecil do autor babaca: Esse é o primeiro capítulo de um livro que comecei a escrever ano passado e que, por motivos óbvios (qualé, é uma bosta, pode falar) nunca será concluído. Quem tem saco pra acessar esse blog percebeu que ando meio sumido. Bem, em primeiro lugar, estou ocupado com coisas que realmente poderão me dar um futuro, tipo TCC e trampo. Em segundo lugar, estou ocupado com outro livro, muito mais foda que essas linhas aí em cima. Vai demorar pra cacete pra ficar pronto, mas vai ficar. Mesmo que eu o use para limpar o meu rabo depois, eu o terminarei. Ah, se terminarei. Continuamos agora com nossa programação não tão normal assim.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Desculpa.

- Por onde você andou?
- Por aí.
- Mas por que tanto tempo?
- Porque sim.
- Vai se foder, eu mereço uma explicação.
- Olha, eu andei ocupado, ok?
- Ocupado com o quê?
- Isso é uma porra de um interrogatório, por acaso? Eu já disse, andei ocupado. Agora faz o jantar.
- Ou você me fala o que aconteceu ou você não come nada. Nem jantar, nem eu.
- Olha, sério mesmo, vamos deixar isso pra depois.
- Fala, filha da puta.
- Andei ocupado. Ocupado demais. Ocupado com coisas que nunca me levarão a lugar nenhum. Ocupado com a minha própria merda. Ocupado substituindo minha auto-estima pela minha auto-piedade. Ocupado num canto, sozinho, por aí. Ocupado lendo Fante e pensando 'Ó, Deus, por que não sou tão bom assim? Ó, Senhor'. Ocupado tentando me lembrar como é a sensação de entrar em uma mulher. Ocupado tentando fazer meu intestino funcionar. Ocupado com um trabalho que não me traz nada, nem dinheiro. Ocupado com coisas interessantes a mim e desinteressantes para o resto do mundo.

Ela deu as costas e foi fazer o jantar. Ele comeria um bom jantar naquela noite. Só o jantar.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Merda.

- Diz pra mim, vai.
- A verdade? Ou o que você quer ouvir?
- O que lhe for conveniente.
- A vida é uma merda.
- Para.
- Foi o que você pediu. É conveniente que a vida seja uma merda pra mim.
- Isso não faz sentido.
- Lógico que faz. Aceitar que as coisas são uma merda torna tudo mais claro. Se não vai dar certo, do que me vale tentar? Prefiro ficar aqui, sentado na minha própria merda.
- Uma hora vai começar a feder. Aí você vai fazer alguma coisa. Não vai?
- Não exatamente. Tudo tem a sua consequência. Você mete e pode ficar doente. Você ama e pode ficar louco. A consequência da merda é ir tão fundo nela ao ponto de perder a capacidade de percebê-la. Ao ponto daquilo tudo se tornar sua realidade. E, meu amigo, nós já sabemos que a realidade é uma merda.
- E você já chegou lá?
- Não sei ainda.
- É só pensar. A vida ainda te surpreende?
- E isso é critério? Desde quando a vida reserva alguma surpresa? Nascer, amar, sofrer, amar, meter, sofrer, sofrer, trabalhar, criar, trabalhar, sofrer, trabalhar, sofrer, trabalhar, morrer. Essa é a vida. A sua e alguns bilhões de pessoas.
- Essa merda não é vida.
- Merda. Vida. É tudo a mesma coisa. Você só tem que saber lidar com elas.
- E o que você tem de tão especial para ser diferente dos outros?
- Nada. Aí que tá. A merda me engoliu. Para quem quer viver acima dela, eu não existo.
- Mas eu te amo.
- Adapte-se.
- Eu tenho outra escolha?
- Não.
- Vá à merda, seu merda.
- Eu também te amo.

Terminou seu monólogo, mudou de canal e se afundou no sofá.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Má influência.

- Eu vou fazer.
- Uhum. OK. Vai sim.
- Vai se foder.
- Na boa, admite.
- Vou admitir o quê? Se eu falei que consigo é porque eu consigo.
- Consegue merda nenhuma. Nem comer sua mulher você consegue.
- Mas isso é diferente.
- Diferente a puta que te pariu. Meter e trabalhar são, basicamente, a mesma coisa. A única diferença é que em um você fode e no outro você é fodido.
- Vai se foder.
- De novo? Você já foi mais criativo, meu caro.
- Vai tomar no cu.
- Uau. Que mudança. O que que é? Perdeu seu senso de humor junto com suas bolas?
- Qualé? Para de ofender minhas bolas, cara.
- Então vai logo, porra! Termina essa merda logo pra gente encher a cara.
- Eu não quero mais encher a cara. Meu médico falou que a bebida é a culpada pelos meus problemas.
- Assim fica fácil.
- Fica fácil o quê?
- Você não percebe? Ele usa isso como desculpa pra esconder a incompetência dele. Na verdade, todo mundo usa a bebida como desculpa pra tudo. Um tsunami varre a Ásia, culpa da bebida. Uns malucos jogam uns aviões nums prédios, culpa da bebida. Sua mulher dá pro instrutor de yoga , culpa da bebida.
- Minha mulher. Aquela piranha.
- Aquela piranha o caralho. Ela é uma mulher boa. Gostosa, tem umas tetas simpáticas. Uma boca boa pra boquete. Você que é fraco. Um frouxo de merda.
- Saindo daqui eu quero beber.
- Vai de quê?
- Uísque quase puro.
- Quase puro? Que porra de quase é essa? Você vive muito no quase, meu chapa.
- É uísque com um dedo de água.
- Tanto faz. O que importa é que ele desça bem, certo? O que importa é ele te levar pra longe desse lixo todo.
- Falou bem. De vez em quando você manda umas frases boas. De vez em quando eu gosto de você.
- Bora pro bar, meu amigo. Vamos celebrar a amizade. VAMOS CELEBRAR O AMOR.
- O AMOR É O COMBUSTÍVEL DO MEU PAU.
- E vice e versa.
- Eu te amo, cara.
- Bora pro bar.

Terminou seu monólogo, deixou o trabalho por fazer e foi pro bar.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Antenas e papéis higiênicos.

Enxugo o suor que escorre na testa e olho para o relógio. Vinte e uma horas e vinte minutos, precisamente. Mais quarenta e eu estou fora daqui. Sinto uma vontade imensa de ficar deprimido. Olho ao meu redor e arranjo um motivo. A luz é artificial, a parede é cinza e é tudo frio. À minha frente, carros passam. Um a um, num ritmo interminável. No fim do meu expediente são alguns milhares de novos carros que inundam as ruas, mesmo que elas não os suportem mais. E o meu supervisor ainda vem com papo de consciência ambiental. O caralho.
Olho para o relógio mais uma vez. Um minuto se passou. Agora só faltam trinta e nove. Mais perto do fim. Mais um carro. Com a mão direita, pego uma antena e a encaixo no teto do carro. Com a esquerda giro a antena no sentido anti-horário e termino o trabalho dando uma última fixada com as duas mãos. E é basicamente isso que eu faço o dia inteiro. Fico aqui. Punhetando antena. Bronhando teto de carro. São vinte e dois anos dessa merda. O que supostamente me faria o mestre da punheta. Mas, levando em consideração que uma punheta é a maior demonstração de amor próprio, acho que estou longe disso.
- E o verdão, hein? - perguntou Carlos, meu parceiro de antena a quinze anos.
- É foda. - retruquei seco.
- Não ganha porra nenhuma.
- E o seu time tá com tudo, né?
- Ronaldão, caralho!
- Ronaldão é o meu ovo.

E essas foram as únicas palavras que trocamos naquele dia. Depois de tanto tempo punhetando um ao lado do outro, não são necessárias muitas palavras. O silêncio fala muito mais. Olhei para o relógio mais uma vez e agora faltavam uns vinte e três minutos. Decidi ignorar o relógio e só esperar pela sirene. Isso sempre fazia o tempo ir mais rápido, mas eu não sabia como. Na verdade, eu não sei de quase nada. Faço poucas coisas e não as faço muito bem. Passou mais um carro e eu punhetei mais uma antena. As coisas seguiam devagar. Era sexta-feira e a semana tinha sido uma merda. Até que eu ouço um grito.
- Que PORRA é ESSA?! Quem foi o FILHO DA PUTA que fez esse CU?!

Pela voz fina eu sabia quem era. Jesus, o supervisor. Um homem baixinho do tipo invocado. Seus cabelos são finos e ralos, penteados com muito cuidado. Os óculos tem grossas armações negras, da mesma cor da sua gravata e sapatos, que parecem nunca sair daqueles pés número trinta e sete. Ironicamente, o cara era um grande filho da puta. E repetia.
- ESSA ANTENA! QUE PORRA É ESSA AQUI? CADÊ? CADÊ MEU PAU!? EU QUERO O MEU PAU! - esperneava enquanto apertava as bolas com toda a força que tinha.
Fui até lá. Com certeza tinha sido eu. O Carlos nunca errava.
- Que foi, Jesus?
- ME EXPLICA QUE MERDA É ESSA QUE VOCÊ FEZ.
- Uma antena.
- UMA ANTENA?
- É. Uma antena. Tá encaixada.
- OLHA MELHOR! OLHA MELHOR! MEU PAU?! CADÊ MEU PAU?!
- Jesus, pelo amor de Deus. Me diz qual o problema.
Ele deu uma respirada profunda e prosseguiu.
- Não é a antena certa, José. Essa é do outro modelo.
- É a certa sim, seu Jesus. A do outro modelo tem um detalhe em prata.
- E?
- E você tá vendo algum detalhe em prata aqui?
- É... Hum... Isso aqui... Não...
- Eu vou voltar pro meu lugar, seu Jesus.
- Não, José! Espera aí um pouco. Preciso falar com você.
- Diz.
- Você anda meio desmotivado. Eu imagino que depois de dez...
- Vinte e dois anos. - interrompi, corrigindo-o.
- Vinte e dois, que seja. Depois de vinte e dois anos punhetando antena, ganhando em um mês o que eu ganho em uma semana e não sendo valorizado por isso você pode acabar ficando meio cansado. Eu até imagino e, inclusive, tento compreender. Mas eu preciso de mais animação. São carros que você faz! CARROS PRECISAM DE ALEGRIA.
- Tudo bem. - respondi e dei o sorriso mais falso da minha vida.
- Então tá joia. Não se esqueça. ALEGRIA!
Dei as costas pra ele.
- E O VERDÃO, HEIN?! - berrou ele enquanto eu me distanciava e ignorava sua presença.

Parei ao lado de Carlos. Ele me olhou com aquele olhar. Eu retribui com aquele outro olhar. A sirene tocou. Alívio. Guardei as antenas Corri até o armário, tirei as botas, as luvas, os óculos, o capacete e despejei tudo lá dentro. Em questão de segundos eu tava fora do galpão. Em questão de minutos eu tava fora da fábrica. O céu estava preto e sem estrelas. Quando cheguei estava azul e cheio de nuvens. Lá dentro isso não faz diferença. Aqui fora sim. O problema é saber qual dessas é a minha realidade.
O ônibus esperava no mesmo lugar de sempre. Entrei primeiro e fui pro fundo. Abri um jornal de esportes. Cacete, o verdão tava mesmo uma merda. A única alegria da minha vida não me dá alegria tem tempo. Logo mais, logo menos, o ônibus vai estar infestado do que sobrou de dezenas de homens. Tem os que punhetam antenas, como eu. Tem os que pintam. Os que apertam. Os que entortam. Os que retorcem. Os que moldam. Os que soldam. E assim por diante. Dezenas de corpos e mentes vazios. Imprestáveis, com habilidades inúteis. Péssimos maridos e ótimos filhos. Fecho os olhos e desperto com Carlos me chamando. Nos saudamos e eu desço no ponto mais perto de casa.
Ando uns oitocentos metros, viro algumas esquinas, subo algumas ruas e estou de frente com o meu portão. Branco, simpático e pequeno, serve de fachada para um lar infeliz. Abro a porta, tiro os sapatos e vou pra cozinha. Abro a geladeira. Um arroz de semana passada, um pouco de feijão enlatado, umas cenouras cruas e um resto de coxão mole de anteontem. Desisto. Abro uma lata de cerveja preta e a viro em dois goles. Depois disso, tiro a roupa e vou pra cama.
Minha mulher aparenta estar dormindo há horas. Virada de costas pra mim, toda coberta, seu rabo continua atraente, mesmo trinta quilos mais gordo. Sinto uma movimentação estranha na minha samba canção. Ignoro seus cabelos terrivelmente presos, sua camisola dos anos trinta e sua lingerie bege com manchas de alvejante. Deito do seu lado. Começo a passar as mãos por aquele rabo gostoso e, furtivamente, escorrego a mão direita para dentro da sua calçinha.
- Tira a porra da sua mão daí, José.
- Mas, Maria...
- Mas a puta que te pariu, José. Vai dormir. Tô cansada.
- Mas sou eu quem trabalhou o dia inteiro.
Sem resposta.
- Maria?
- O QUÊ, SEU MERDA? O QUÊ?
- Que que eu faço, então?
- Vai bater uma punheta.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Ups and downs.

Daqui de dentro o mundo parece uma grande e dura merda. Mas pelo menos é uma merda que passa rápida, com um aspecto borrado. O que me faz lembrar o resultado dos meus fins de semana, pulando de bar em bar. Não tem ninguém do meu lado. Para o alívio do infeliz que viesse a se sentar ao meu lado. Abro um Bukowski puro sangue e esqueço do tempo que insiste em avançar no relógio e escurecer lá fora. Uma gostosa conversa com um policial no banco atrás de mim. E o cara não sabe domar a cavala. E ser jovem era uma merda.
O livro acaba. Adormeço. Acordo com o amarelo das luzes da rodoviária. Pego minha mochila e vou descendo. Atrás de mim, o policial permanece sentado. A gostosa vai na minha frente. Admiro seu incrível rabo, que se move num ritmo que faria o pau do Papa acordar. Ela olha para trás. Eu olho de volta. Sua expressão muda do desinteresse, para a repulsa. Foda-se aquela vadia.
Desco as escadas do ônibus e agradeço o motorista. Não enxergo nenhuma reação na cara mole dele, mas perdôo. Pior que viver nas ruas, é viver nas estradas. Atravesso o enorme salão. Perdido. Centenas de pessoas passam ao meu redor. Correndo, caminhando, chorando, sorrindo, abraçando, beijando. Aquela massa toda não passa de uma infinita contradição. Um casal de jovens se abraça calorosamente a uns dez metros de mim. Ele diz pra ela que não quer deixá-la. E eu só consigo pensar nas outras que ele vai comer, onde quer que esteja indo. Ninguém é fiel hoje em dia, e só as mulheres não percebem isso.
De repente, me lembro do que havia dito pra mim mesmo alguns minutos atrás. Antes de qualquer coisa, eu precisava ir ao banheiro. Logo na entrada do lugar tinha uma enorme placa com os valores. Uma mijada era um e vinto e cinco. UM E VINTE E CINCO POR UMA MIJADA. Fui até o caixa e fui ignorado completamente por uns trinta segundos. A mulher conversava sobre alguma imbecilidade com um homem tão imbecil quanto o assunto. Uma cavidade movia-se acima dos lábios secos e apagados da velha. Outro rombo reluzia em sua testa. Olhei para trás e um garotinho esperava ansioso, com as mãos no meio das pernas.
- Tá vendo aqueles buracos ali na cara da velha? - perguntei pro muleque apertado.
- Uhum.
- Se você fumar crack, vai ficar que nem ela.
- Crack? Que isso?
- Ah, pergunta pro seu pai. Ele deve saber.

O muleque baixou a cabeça e eu levantei a minha. Era boa a sensação de ter livrado uma pobre alma de um possível vício. E ter fodido com a cabeça de um adulto. E ser jovem era uma merda. Entreguei o dinheiro na mão da mulher e ela me entregou uma ficha. Atrás da ficha lia-se TELESP. A ficha foi pra mão do homem que não podia trabalhar porque estava falando com a mulher que ele não deixava trabalhar. E assim eu entrei no banheiro, sem encontrar meus olhos com os olhos dos dois. Quem dera fosse sempre assim. Minha vida seria melhor. E o mundo, talvez, um lugar menos pior.
Corri em direção ao mictório já com o zíper semi-aberto. O lugar ficava entre duas paredes de granito cinza e vagabunda. Até aí, tudo bem. Um lugar que serve pra mijar não precisa de luxo. O problema é que as paredes eram extremamente apertadas, o que, no fim das contas, tornou uma simples mijada um jogo de escolhas. Ou eu mijo com segurança e sofro com a incrível pressão que aquela parede fria proporcionava, ou eu me arrisco num mijo trêmulo à longa distância mas saio com minha integridade física intacta. Escolhi a opção número dois. Antes a minha integridade física sair ferida que a minha integridade moral.
Eu fazia força e a urina saía sem parar. Trinta segundos. Quarenta segundos. Cinquenta segundos. Mijando. Desisti de contar e ela se esgotou. Minhas bolas doíam porque a minha namorada não queria dar pra mim. E ser jovem era uma merda. Fechei o zíper e admirei a porcelana branca manchada de amarelo. O cheiro subiu forte. Tão forte que era quase possível sentir o gosto. Corri para a pia e lavei o rosto com vontade. Queria me livrar da sujeira. Queria me livrar de mim mesmo. Enxuguei o rosto, olhei no espelho e me senti novo por alguns instantes. Sai dali, antes que a sensação passasse.
Logo ao lado do banheiro tinha uma lanchonete. Uma lanchonete. Logo ao lado do banheiro. Eu sabia que isso não fazia sentido, mas ignorei o fato. Fui até o balcão e pedi o que tinha de mais fácil. Não passou trinta segundos e o lanche estava na minha mão. Instantâneo. Descartável. Como todo o resto da sociedade. Simpático, agradeci à caixa.
- Obrigado, babe.
- De nada, senhor.
- Sabe de uma coisa?
- Sim?
- Você ficaria ótima lá em casa, com esse rabinho na minha cara.
- Senhor, por que você não deita e morre, com o dedo no cu, senhor? Próximo!

Dei o meu melhor sorriso, agradeci e fui em direção à mesa. De lá, pude ver algo que me deu nojo. Sentado num banquinho, um tipo fortinho tocava um violão velho e tentava cantar uma música de uma cantora que pagou boquetes para subir na vida. Sem sucesso. Nem isso o cara conseguia. Mordi meu lanche fácil e sem sabor. A música acabou. Respirei aliviado. A música voltou. Meu estômago embrulhou mais uma vez. Em duas bocadas, terminei meu lanche e me levantei, deixando o papel sujo em cima da mesa. Caminhei até o tipo fortinho.
- Meu chapa, escuta, para com isso.
- Dá licença. Tô tentando trabalhar.
- É sério. Você não precia disso tudo, cara. Olha ao seu redor.
Ele olhou.
- Agora me diz: quantas pessoas estão realmente prestando atenção em você.
Ele calou.
- Pois é. Desce desse banco e vai pagar um boquete para alguém.
- Vai se foder.
- Porra. Só você não percebe. Os boquetes. São eles que movem o dinheiro. São eles que movem a porra do mundo. Os santos boquetes.
- Eu nunca tinha pensado assim, mas faz sentido.
- Eu sei que faz, tudo o que eu digo faz sentido.
- E você?
- Eu o quê?
- Quer um boquete?
- Vai se foder.

Deixei o tipo fortinho boqueteiro para trás e ganhei as ruas. Ah, como aquilo fez eu me sentir bem. Aquele bafo quente, fétido, direto na minha face. A realidade. A dura realidade. De repente eu havia me encontrado. Eu era um ex-esquizofrênico me conhecendo aos poucos. Eu era alguém. Um zé ninguém. Parei um táxi e fui de encontro ao meu destino.
A próxima coisa da qual me lembro sou eu, num banco de ônibus, voltando para casa. Uma morena de lindas tranças, pescoço suave e peitos maravilhosamente grandes está sentada ao meu lado, lendo alguma coisa. Crime e Castigo, Dostoiévski. E ser jovem não era nais uma merda.
- Bom gosto você tem, babe.
- Vai tomar no seu cu.

E ser jovem era uma merda.